22.7.12

Mais Síria de Raúl M. Braga Pires

O atentado na manhã da passada quarta-feira dia 18, na chamada Célula de Crise do regime sírio, estabelece a "Hora Zero" de um novo patamar atingido pelo conflito, certamente aquele que marcará o fim do regime da família Assad, o qual perdura desde 1971. O atentado, em si, para além das perdas significativas (Ministro da Defesa, do Interior, Vice-Ministro da Defesa, Conselheiro Militar do Vice-Presidente, Chefe da Segurança Nacional e mais, prováveis 34 oficiais superiores, que um jornalista holandês diz ter visto, mortos, no Hospital Militar de Damasco), demonstra pura e simplesmente que as fileiras militares estão irreversivelmente infiltradas, quer se tenha tratado de um atentado suicida, quer se tenha tratado d'engenho explosivo colocado no local certo, para explodir à hora certa. Certamente uma consequência da deserção do General Manaf Tlas, ex-Comandante da Guarda Repúblicana e intimo de Bashar Al-Assad. Ao decidir-se atacar esta Célula de Crise, decidiu-se atingir o centro nevrálgico do último estádio do processo d'análise das informações recolhidas e da construção de cenários e d'opções d'acção apresentadas ao Presidente, o qual toma a decisão derradeira. Dos "Quatro Magníficos" que morreram no próprio dia do atentado, destaca-se Assef Chaoukat, que para além de Vice-Ministro da Defesa, era também cunhado e figura muito próxima de Bashar Al-Assad. Segundo certos analistas, era este homem que tinha um ascendente indiscutivel no seio desta célula e junto do Presidente também, fazendo do próprio uma figura crucial no processo de tomada de decisão. Com um golpe desta dimensão, a cabeça mais visível do regime fica pura e simplesmente privada d'informação. Deserções Por outro lado, o clima de paranóia e de desconfiança nos corredores do poder, nas fileiras militares, nos serviços d'informação e entre a população pró-regime, deve ter também atingido um nível para lá do insustentável, o que certamente favorecerá mais deserções. Esta é uma das chaves para se perceber por quanto mais tempo é que o regime se vai aguentar. Ou seja, tem-se assistido a deserções, mas nunca se assistiu a deserções em massa. Fontes turcas indicam a entrada no seu território, na noite posterior ao ataque bombista, de 700 militares do exército regular sírio, do qual também se contabilizaram 1 Brigadeiro e mais 20 oficiais, dos quais 4 são coronéis. A confirmar-se e a continuarem a este ritmo, serão estes homens que poderão dar informações e consistência aos rebeldes, para ocuparem de forma definitiva pontos chave na capital e derrubarem o regime. Território Libertado Outra chave decisiva para a resolução do problema é a libertação de certas partes do território. Nunca houve benghazis na Síria, ou seja, zonas controladas pelos rebeldes, como na Líbia, que lhes permitisse um ponto de partida para a conquista, bem como um ponto de refúgio, d'apoio médico e logístico. Acontece que isso se começa a verificar, sobretudo na província d'Idlib, a norte, visível nas celebrações após o atentado. 48 horas após todos estes acontecimentos, os rebeldes conquistaram vários postos fronteiriços, sobretudo com o Iraque e Turquia, mas também com a Jordânia. Estes postos têm estado sob disputa nas últimas horas, sendo certo que alguns já foram reconquistados pelo regime. Turquia, Iraque e Jordânia fecharam as suas fronteiras com a Síria, sendo que uma das questões que se levanta de momento e que vai dar que falar no futuro mais próximo, são os postos fronteiriços iraquianos em território autónomo curdo, bem como os postos fronteiriços turcos, em território de maioria curda. Recordo que um dos bloqueios no seio do Conselho Nacional Sírio (CNS), desde há 16 meses, foi o facto de os seus membros curdos imporem aos restantes o compromisso de assumirem a criação de um Curdistão sírio autónomo, no pós-regime. Foi também para apaziguar estes ânimos que o curdo Abdelbasset Sida foi eleito Presidente do CNS a 09 de Junho, bem como para o pós-regime não ter à cabeça um sunita apoiado pela Irmandade Muçulmana. Os curdos, certamente que não perderão oportunidade de fazer deste o seu momento. Um outro detalhe importante que ainda não se tinha verificado até à passada quarta-feira e que agora é uma realidade, são os ataques bem sucedidos às esquadras de polícia, respectivo roubo e destruição. O mesmo foi verificado em estações do correio, por exemplo. Estes são pequenos detalhes que nas outras revoluções da "Primavera Árabe", se verificaram logo no início das insurreições. Na Síria, só agora se começam a verificar, o que nos dá a dimensão de como os acontecimentos de quarta-feira poderão rapidamente conduzir ao fim do regime. Capital Económica Aleppo, no norte, não muito longe d'Idlib, embora a primeira na província d'Halab, tem concentrado as atenções desde o início da revolta. É nesta cidade industrial e comercial que se concentram as grandes fortunas do país, bem como aqueles que têm sustentado o regime até então. É também o centro económico das trocas com a Turquia, servindo de porta d'entrada e saída de bens, através da auto-estrada internacional que liga Damasco a Aleppo e posteriormente à fronteira com a Turquia. Aleppo também acolheu algumas dezenas d'empresários iraquianos da zona de Mosul, durante a última Guerra do Golfo, os quais acabaram por aí se estabelecer e melhorar o nível de vida das populações locais, o que não passou despercebido ao poder central, o qual investiu ainda mais na região, canalizando projectos e oportunidades de criação de mais emprego. A importância económica d'Aleppo é de tal forma, que poderá decidir de forma crucial o desiquilibrio da balança para qualquer um dos lados. Não foi por acaso que quando se iniciaram as demonstrações públicas d'apoio ao regime, Aleppo surgiu à cabeça, demonstrando um apoio massivo. Na verdade, os seus empresários e comerciantes receberam subsídios do Estado e publicidade aos seus negócios nos media públicos para o fazerem, mas este detalhe também é bastante significativo da importância da cidade. É aqui, que neste preciso momento decorrem os confrontos mais ferozes, após as tropas regulares terem expulso os insurgentes do centro da capital. Armas Químicas No próprio dia do atentado, a Casa Branca demonstrou a sua preocupação pelas movimentações e manuseamento detectados nos paióis d'armas químicas. Ou seja, o regime fez deslocar armas químicas da períferia para o centro, deixando no ar a possibilidade de as utilizar em desespero de causa, mais do que estar a efectuar uma movimentação táctica, para as proteger de cairem nas mãos erradas, nomeadamente a Al-Qaeda. Há, de facto, esse risco, que não é d'hoje, havendo ainda outro, o de ser entregue aos operacionais do Hezbollah, braço armado do regime iraniano no Libano e aliado do regime sírio. Esta hipótese, provocou já uma reacção do Ministro da Defesa israelita, Ehud Barak, o qual disse que não tolerará qualquer tentativa d'aproximação de qualquer grupo que considera terrorista, a este tipo d'armamento. Uma intervenção israelita neste conflito, reportaria o mesmo para um outro patamar regional, nada desejável. No entanto, esta preocupação americana, é também uma mensagem para o regime sírio, dizendo que o mesmo está sob um escrutíneo apertado, quer seja por satélite, quer por drones. Onde está o Presidente? Rumores indicam que a sua família já se encontra em Moscovo, o que não foi desmentido, ao contrário, da informação de que o próprio Bashar Al-Assad já lá estaria também. Supõe-se que terá dado posse ao novo Ministro da Defesa, o General Fahad Dgasim Al-Faridg em Lattakia, cidade mediterrânica, na região das montanhas alaouitas, onde pelo nome se percebe porque é que o Presidente e o seu séquito se sentirão mais seguros. A grande novidade, no entanto, é a seguinte: Enquanto toda a gente perguntava pelo Presidente Assad, eis que surge em público o Vice-Presidente Farouq Al-Sharaa, no funeral de 3 dos "Quatro Magníficos", assumindo um protagonismo denunciador duma mudança que ainda não se tornou clara, mas que o será a breve trecho. A solução à iémenita poderá estar em curso, mas outra das consequências do atentado à Célula de Crise, é a de que a mudança de regime não poderá ser pacífica. Imaginando que o Presidente abdica de todos os poderes a favor do Vice-Presidente e segue para o exílio, nem o facto d'Al-Sharaa ser sunita o segurará. Há 16 meses que o povo grita Ach3ab iurid iskat a'nizam, o que significa "O Povo quer a queda do Regime". Nada mais. Factor Ramadão O Ramadão, momento de reflexão, é também um momento d'apelo à solidariedade, ao esforço e ao sacrifício. Sobretudo para os rebeldes, é também um momento d'apelo à memória, já que há um ano atrás não estavam sózinhos na sua luta libertadora. Com eles estavam líbios e iémenitas. Tendo estes 2 últimos regimes sido derrotados (o Iémen está do avesso, o qual abordarei em breve), há o sentimento duma inevitabilidade histórica, de que este será o ano sírio. Nesse sentido, os recentes acontecimentos, na própria semana em que se inicia o mês sagrado, são naturalmente considerados como um sinal divino. Ambos os lados estão a dramatizar o discurso no sentido da derradeira batalha, após o atentado, o qual terá certamente eco nos corações de todos, facto decisivo para o futuro do conflito. Nações Unidas A insistência russa em vetar uma resolução das Nações Unidas, como aconteceu pela terceira vez no passado dia 19, 24 horas após o atentado no centro de Damasco, significa que os russos fizeram rapidamente as contas e perceberam que ainda há possibilidades de se protelar por mais algum tempo o inevitável. É de Junho a notícia de que novas notas impressas na Russia chegaram a Damasco para combater o déficit. Várias agências dizem que o regime tem ainda dinheiro para pagar mais um ano d'ordenados, sobretudo a militares e polícias. Os israelitas dizem que há condições para se aguentarem mesmo dois. Veremos. Quanto à China, também veta pelas razões descritas no texto anterior, mas caso a Russia s'abstenha, fará o mesmo, já que não quererá assumir o ónus na totalidade e, vice-versa. No dia seguinte, 20 de Julho, foi aprovada por unanimidade, também no Conselho de Segurança, a extensão da Missão d'Obervadores por mais um mês. O derradeiro. Não faria sentido retirar estes homens do terreno, sobretudo agora que tudo se poderá resolver a qualquer instante, podendo mesmo assumir de forma oficiosa e d'improviso, por breves momentos que seja, uma outra qualquer missão. Há pelo menos 300 homens de tropa avançada e de boina azul, por mais 30 dias no terreno. Ler mais: http://expresso.sapo.pt/maghreb--machrek=s25484#ixzz21LRnjJvg

20.7.12

Uma Presidente da Comissão da União Africana

South Africa finally won the battle for the AU Commission chair, amid high hopes for reform and more effective interventions. Security crises in five countries and pressing economic problems confront the new Chairperson of the African Union Commission, Nkosazana Dlamini-Zuma. Although she has three months to wind up in South Africa, where she is Home Affairs Minister, before moving to the AU in Addis Ababa, her transition programme is already under way. After a fairly bitter election campaign, senior officials are urging the defeated candidate and incumbent, Gabon’s Jean Ping, to work for a smooth handover. Since the veteran diplomat is searching for another international posting, he may want to protect his legacy. Over the coming months, the AU will play a central role in negotiations on Congo-Kinshasa, Guinea Bissau, Mali, Somalia, and South Sudan and Sudan.

18.7.12

A Síria, segundo Raúl M. Braga Pires

Na semana em que começa o Ramadão, uma nova Resolução das Nações Unidas vai hoje, quarta-feira, a votos no Conselho de Segurança, com base no Capítulo VII. A Resistência síria também procedeu a uma forte ofensiva em vários bairros de Damasco, a capital. Esta também é uma semana de ressaca após se ter verificado mais um massacre em Traimseh, província de Hama (12.07, 200 mortos) e das deserções do General Manaf Tlas, Comandante da Guarda Repúblicana e intimo de Bashar Al-Assad e do Embaixador Nawaf Fares, creditado em Bagdade, Iraque. Fares, o primeiro diplomata sénior a virar as costas ao Presidente Assad, deu uma informação preciosa numa entrevista à Aljazeera, ao dizer que o processo de tomada de decisão está completamente concentrado no Presidente, mas que os generais que o rodeiam não lhe estão a disponibilizar a informação toda, fornecendo mesmo por vezes, informação que não é a correcta, o que nos transporta para um cenário de provável golpe palaciano em curso. O mesmo faz todo o sentido, na medida em que a solução menos má, na qual a comunidade internacional trabalha, é a de uma saída de cena da família Assad "à iémenita". Ou seja, a família deixa o poder e recolhe tranquilamente a um provável exílio na Russia, ou no Irão, enquanto que um governo provisório e de unidade nacional toma as rédeas dos destinos do país. Compreende-se ainda melhor a aposta nesta solução, aquando da eleição do curdo Abdelbasset Sida para a liderança do Conselho Nacional Sírio, a 09 de Junho passado, em substituição do sunita Burhan Ghalioun, apoiado pela Irmandade Muçulmana síria. Para além de se querer evitar uma Síria sunita radical no pós-regime, que certamente procederá a uma caça às bruxas, potenciando o sectarismo religioso, o círculo mais próximo d'Assad, alaouita, também quer garantir a sua própria sobrevivência física e enquanto comunidade. No fundo, são estes cerca de 12% da população que mais experiência têm na gestão da coisa pública síria, administrativa, de segurança e militar e, que muita falta farão na construção da Nova Síria. Parece que os erros cometidos no Iraque, não serão aqui replicados. Por outro lado, Israel não poderá ter mais um Estado declaradamente inimigo nas suas fronteiras. Já tem um Líbano com o Hezbollah a norte e o Egipto com a Irmandade Muçulmana e os salafistas a sul. Não quer isto dizer que Israel e a Síria d'Assad sejam amigos, mas que uma das consequências da "Primavera Árabe" é a total perda de previsibilidade do que irá acontecer já hoje e amanhã. Insustentável. A entrada dos revoltosos no centro da capital, também acontece num momento em que Hillary Clinton efectua a primeira visita ao Egipto já em plena II República, bem como a Israel, onde debateu o nuclear iraniano. Este facto é de crucial importância, já que antes de seguir para Moscovo esta semana, Kofi Annan passou antes por Teerão e por Bagdade, numa mensagem clara de que quer que o Irão e o Iraque (onde as tensões sunitas/xíitas se vão resolvendo à bomba) sejam incluidos no processo da "solução menos má" referida no 2º parágrafo. Mohamed Elbaradei, enquanto Director-Geral da Agência Internacional d'Energia Atómica, disse uma vez que "o Irão não é um burro, logo, não deverá ser tratado como tal". Isto a propósito da "política do pau e da cenoura", muitas vezes advogada e colocada em prática, para casos sem solução à vista, os quais se vão protelando no tempo, como é o caso das negociações sobre o nuclear iraniano. Ao mesmo tempo que tudo isto acontece, rebeldes no centro de Damasco, Clinton no Egipto e em Israel, Annan em Moscovo, Ban ki Moon, Secretário-Geral das Nações Unidas, também se encontra em Pequim e, já agora, o Embaixador sírio creditado em Rabat, é convidado a abandonar o reino, o que entretanto já efectuou. Plano de 6 Pontos de Kofi Annan Não estou d'acordo quando se diz que o mesmo se trata dum fracasso total. De facto, foi incompletamente colocado em prática e a espaços, durante a primeira semana d'implantação. Depois disso passou a letra morta. No entanto, é este mesmo plano que permitiu a entrada e permite ainda a permanência de 300 observadores das Nações Unidas, os únicos estrangeiros com alguma liberdade de movimentos no país, os quais estão a criar uma base de dados e a proceder à recolha de provas sobre os acontecimentos diários no terreno. Ou seja, certamente dentro dum ano, estaremos a ouvir/ler relatos destes observadores em pleno Tribunal Penal Internacional, aquando do julgamento de elementos da hierarquia militar e policial do regime, das milicias que actuam a soldo deste, ou do próprio Bashar Al-Assad, já que no cenário do golpe palaciano, nunca será de excluir a hipótese da entrega da cabeça do Presidente numa salva de prata, acto redentor para todos/as aqueles/as que agora o rodeiam. O prorrogação desta missão, ou não, será votada pelo Conselho de Segurança na próxima sexta-feira, dia 20 de Julho. O que falhou redondamente até aqui, foi este plano não prever a aplicação de sanções, perante o seu não cumprimento. Será esse o coelho que Annan terá que tirar da cartola, para garantir a continuidade da missão. Ou talvez não, já que o mesmo tem vindo a responder desde 12 d'Abril aos seus criticos duma forma muito pragmática e honesta. "Quem tiver uma solução melhor, que faça o favor de a apresentar". Até hoje, esta tem sido a 2ª melhor solução. A 1ª ainda não foi inventada. Posição da Russia Num cenário d'insitência por parte da comunidade internacional sobre o Capítulo VII, sobretudo o artigo 41º, das Nações Unidas, a Russia responde com pragmatismo da Real Politik. Em primeiro lugar há duas questões que são inegociáveis para os russos, os negócios/investimentos e o Porto maritimo de Tartus, a "duas braçadas" do Canal do Suez e dos estreitos de Dardanelos e de Bósforo, único posto militar que possui fora da ex-União Soviética. Quanto a negócios, os contratos d'armamento ascenderam nos últimos anos ao valor de 4 mil milhões de dólares pagos pelos sírios, tendo como contrapartida um investimento russo que já atingiu os 20 mil milhões de dólares, estando de momento, por exemplo, a ser construida uma refinaria de gás pela empresa Stroytransgaz. Caso o poder mude de mãos na Síria, muito provavelmente os russos serão afastados deste palco, por interesses muito mais próximos da Turquia, das monarquias do Golfo e do Ocidente. Por outro lado, há que perceber mais 3 factores importantes. Em 1º, o cenário é de Guerra Fria no Médio Oriente e há que tomar uma posição, escolher um lado. No sentido da Grande Estratégia regional, o que se passa na Síria é o cenário onde são projectadas as tensões locais entre sunitas e xíitas, entre otomanos e persas, entre sauditas e iranianos, entre islamistas e laicos, agora também com um "minúsculo" Qatar a agigantar-se. Portanto, deste ponto de vista, trata-se de uma questão de credibilidade, o posicionamento russo, já que foi sempre através do parceiro sírio que entrou no Mundo Árabe. Em 2º lugar, os russos pura e simplesmente não confiam nos europeus e nos americanos. O exemplo do que aconteceu dias depois da aprovação da Resolução 1973 pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Março de 2011, a propósito da Líbia, ainda não foi devidamente digerido pelo Kremlin, o que nos transporta para a 3ª razão. Ou seja, a Russia de Putin, precisa de marcar a diferença relativamente à Russia de Medvedev. O Artigo 41º, poderá na prática conduzir precisamente a uma situação semelhante à da Resolução 1973, já que sanções que não incluam o uso da força armada, mas que incluam uma total ou parcial interrupção de relações económicas e de comunicação por terra, mar, ar, correio, telégrafo, rádio, ou outros meios, poderá logo de seguida degenerar na criação duma zona de exclusão aérea. Posição da China A China lê os acontecimentos da seguinte forma. A queda do regime de Bashar Al-Assad será um primeiro passo, para numa lógica dominó, de seguida cair o regime dos Ayatollahs no Irão. Faz sentido e não andará muito longe das contas efectuadas pelos estrategas americanos, sobretudo após a "Primavera Persa" ter falhado nas presidenciais de 2009, onde o candidato reformista Mir-Hossein Mousavi Khameneh, o grande opositor do Presidente Mahmoud Ahmadinejad, ter sido derrotado, muito provavelmente fruto de fraude. O "Movimento Verde", de protesto e constituido após o desfecho eleitoral, continua em lume brando, aguardando pelo melhor momento para emergir. Ora as razões da China também são simples. O petróleo que compra ao Irão, constitui "apenas" 20% daquilo que consome na totalidade e não se pode dar ao luxo de os dispensar, num cenário dominó, conforme referido e, sobretudo num momento em que já outros 20% do seu consumo total lhe faltam, após a partição do Sudão, há já um ano. Guerra Civil Parece uma questão semântica, mas não o é. A 12 de Junho, Herve Ladsous, Chefe da Missão d'Observadores das Nações Unidas na Síria, surpreendeu meio Mundo ao afirmar que já não havia dúvidas de que o país tinha mergulhado num estado de guerra civil. A outra metade do Mundo não ficou espantada com a afirmação, nem com o facto de se evitar classificar o conflito sírio como tal. As razões são simples, já que o facto alteraria completamente as regras do jogo. As leis da guerra passariam a vigorar, tendo que se respeitar as Convenções de Genebra e Protocolos Adicionais, aqueles que são hoje considerados como criminosos e terroristas passariam a ter o estatuto de legitimos combatentes, legitimando também o uso de material de guerra mais pesado, de parte a parte. A Revolução, deixava de o ser. A pior das situações para os sírios e para a região, em oposição à opção "mal menor à iémenita". Em rigor, o actual status quo interessa a todos. Até mesmo aos sírios, por incrível que pareça! Raúl M. Braga Pires http://expresso.sapo.pt/maghreb--machrek=s25484#ixzz20zBweTBm

17.7.12

Mali tem um problema com diplomas falsos

Le gouvernement de transition dirigé par Cheick Modibo Diarra part en guerre contre les titulaires de faux diplômes, qui exercent dans la fonction publique et dans les collectivités locales. Selon une enquête diligentée par le ministre de la Fonction publique, de la Gouvernance et des Réformes Administratives et Politiques, Mamadou Namory Traoré, 2 000 fonctionnaires maliens n’ont pas de diplômes authentiques. Des fonctionnaires dont l’intégration à la fonction publique pourrait être purement et simplement annulée par les nouvelles autorités.

16.7.12

Sobre João Relvas, pai de Miguel

Apesar de ele ser apenas uns dois anos mais velho do que eu, nessa altura, pelos finais dos anos 40, tal diferença era a que separava um garoto dum rapaz, até porque, ao contrário de mim, o João Relvas sempre foi alto, corpulento, de voz grossa e com jeito para a liderança. Pertencemos ambos à escola de Homens que foi a Mocidade Portuguesa. Desculpem-me porque me repito, mas tenho-o afirmado sempre, até nos anos em que esta declarada conviccção era, para muitos “democratas” de fresca data, uma provocação. Não vou agora perder tempo na fácil demonstração de que aqui, na nossa isolada e atrasada Portalegre de então, a MP foi a única instituição (talvez com a pálida cooperação da JEC e da JOC) capaz de permitir o nivelamento social e cultural entre certos estratos populacionais juvenis separados pela sua marca de origem, quase como uma casta, quase como num apartheid… Do salutar convívio entre a malta, toda a malta, quer no desporto como na cultura, nos acampamentos como nos refeitórios, nas ofertas de formação ou nos tempos livres, enfim, desse provocado e permanente encontro entre gente ávida de oportunidades, surgiam amizades, até mesmo cumplicidades, que sobraram pela vida fora. Algum de nós sabia então o que era a política? Se falo disto é porque eu e o João nos encontrámos na MP, eu simples e quase anónimo filiado de base, ele dirigente responsável, um líder. Com o Mário do Rosário e o António Eustáquio, dois outros amigos, ele redigiu durante anos uma página periódica -A Voz da Juventude- inserida no jornal A Voz Portalegrense, onde era dada conta da actividade da organização. Dirigiu a Casa da Mocidade local, foi aí responsável por diversas secções e chegou mesmo a ser um dos principais colaboradores do Dr. Armando Sampaio, sempre revelando em todas as funções a que foi chamado competência, lealdade e dedicação. A sua actividade comunitária mais significativa foi por ele assumida a partir dos inícios de 1955, quando decidiu gerir o mais emblemático café portalegrense, o Alentejano. Aí sucedendo a um empresário carismático, José Joaquim Francisco Fernandes, João Relvas mostrou-se plenamente à altura das novas responsabilidades comunitárias. No dia 16 de Janeiro de 1955, um Domingo, o Café Alentejano reabriu as suas portas após um curto período de encerramento para remodelação. A imprensa local divulgou a notícia, numa altura em que os cafés de Portalegre eram pontos de encontro e convívio muito importantes para a cidade, desde a Leitaria Chique, ao Vitória, ao Central, ao Luso, ao Plátano, ao Castro e ao Cedro Bar, a que muito em breve se juntaria o Facha. E a expectativa, graças ao dinamismo de João Relvas, foi cumprida. Recuperou a confiança da malta mais nova, que se desentendera com José Fernandes, atraiu e manteve os seus amigos certos, introduziu novidades como uma revolucionária máquina de café -“cimbalino” lhe chamou um jornal local, à moda do Porto!- renovou a frasqueira e o serviço de pastelaria, ofereceu música de dança às quartas-feiras (com a Ferrugem), recuperou o restaurante (onde Régio se deliciara com o seu amigo David Mourão-Ferreira, há uns anos atrás), instalou um bar funcional na sala do bilhar, criou um serviço integrado de conveniência, com selos, postais, telefone público e aceitação de correspondência de “última hora” e, pasme-se!, disponibilizou “um grande ineditismo em Portalegre: – uma tabacaria e posto de venda de jornais, livros e revistas, com empregada simpática.” Transcrevi neste final um trecho da notícia alusiva constante d’O Distrito de Portalegre, de 26 de Fevereiro de 1955. Por esta altura, integrei com o João os novos corpos gerentes da Associação dos Antigos Filiados da Mocidade Portuguesa em Portalegre, eleita a 31 de Janeiro de 1955. Naturalmente, de acordo com a lógica da relativa importância de cada um de nós, ele foi vice-presidente da Mesa de Assembleia Geral e eu um simples vogal da Direcção… Outros nossos companheiros, para recordar, foram Arnaldo Sardinha, Manuel Cabrinhas Vintém, Misseno de Oliveira, Joaquim Mourato Fernandes, José Cardoso de Oliveira, António Fidalgo Sajara, Jorge Miranda Branco, Alberto Cassola de Paiva, Alberto Lança Guanilho, Henrique Moreira Testa, João Perreira Charais… João Relvas casaria com Branca Cassola e devo a tal propósito valorizar algo a que Portalegre, sempre “distraída” enquanto comunidade, não costuma atribuir grande importância: o real significado do papel das pessoas enquanto activos elementos, afinal os verdadeiros construtores dos destinos colectivos da cidade. Por outras palavras, realço, aqui e agora, o sentido mais profundo do lema que Régio criou para uma tapeçaria de João Tavares: A Alma do Homem é que dá Corpo à Cidade. As famílias Relvas e Cassola pertencem ao íntimo património desta cidade de Portalegre. Nos mais diversos níveis de intervenção, muitos dos seus elementos e ao longo de sucessivas gerações, contribuiram para sermos o que hoje somos, com todos os méritos e fragilidades que nos caracterizam. Somos portanto um pouco do que eles foram, do que eles nos legaram… João Relvas não esteve muitos anos à frente da gerência do Café Alentejano, devolvendo-a à família do seu antecessor. Foi Almeida Dias, genro de José Fernandes, quem lhe sucedeu. A verdade é que, nos altos e baixos da sua já longa existência, o café resistiu até aos nossos dias, caso único entre os seus pares da época “gloriosa” dos tais anos 50… O meu amigo foi para Lisboa, mas soube que também não se fez velho por lá, emigrando pouco depois para Angola. Então perdi-lhe completamente o rasto, durante décadas, até à notícia necrológica de há escassos meses. Morreu com 80 anos, de doença prolongada (como se diz e foi escrito), e as cerimónias fúnebres decorreram em Almada, onde residia, culminando com a cremação do corpo. Paz à sua alma! A notícia apenas ultrapassou o vulgar anonimato que lhe seria concedido pela força do facto de João Augusto Garção de Miranda Relvas ser o pai do senhor presidente da Assembleia Municipal de Tomar e ministro dos Assuntos Parlamentares. Conhecendo o João Relvas como conheci, e admitindo que ele nunca perdeu as qualidades de inteligência, firmeza e liderança que sempre o caracterizaram, tenho a certeza de que profundamente o desgostariam os sucessivos e infelizes protagonismos públicos do filho primogénito. Nada que ele não pudesse ter corrigido, com um valente e sonoro par de tabefes aplicado por aquelas poderosas manápulas no rosto insolente do seu pouco responsável filhote… António Martinó de Azevedo Coutinho

9.7.12

Guiné Equatorial: um crescente poderio militar

One of the richest countries in Africa, Equatorial Guinea, is rapidly expanding its naval power. The fleet of the 600,000-strong country will be larger than that of 160 million-strong Nigeria. Is Africa preparing for a major war? In January of 2012, the Navy of Equatorial Guinea officially added to its ranks a 2,500-ton frigate Bata. It was built at the Bulgarian shipyards with the active participation of Ukrainian experts and became the flagship of the ever-increasing military and naval forces. Judging by a picture made in Malabo (the capital and main navy base of the country), the ship has powerful enough weapons by the standards of the region: one 76-millimeter and two 30-mm automatic guns and two helicopters. Until recently there were five small patrol boats, mostly of Soviet (Russian) and Israeli production. Among them, two 58-ton high-speed patrol boats Shaldag Mk II purchased in 2004-2005, from the Israelis that are now serving in the navy of the country under the names Isla de Corisco and the Isla de Annobon. However, in 2008, the Navy of the country in secrecy received a 50-metre ocean patrol vessel Estuario de Muni. Within the last two years the Navy of the country has changed beyond recognition. Another such ship was received, and in March of 2011 two 470-ton 62-meter patrol vessels Kie-Ntem and Litoral were delivered from Israel. In fact, the vessels are a patrol option of missile boats type Saar 4. But there is more to it: now Equatorial Guinea ordered from Israel two corvettes, and is in talks about acquiring a modernized Brazilian Barroso corvette with the displacement of two thousand tons, and another three ships of the same class from South Korea. However, even without the implementation of these transactions, this tiny country with a population of 650,000 people is second only to Nigeria (150 million) in terms of the strength of the Navy in West Africa. Why does Equatorial Guinea need such power?”This is designed to defend the country’s maritime borders, and because of this equipment,if necessary, the frigate can land on any part of the coast of Equatorial Guinea in all weather conditions,” said President Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. At the same time he announced the creation of full-fledged Marines. The President also announced the procurement of an aircraft Marco Antonio for the armed forces”specially designed for the protection of the country and ensuring its security. They will fly over the territory in order to identify upcoming cases of betrayal, as it happened before.” The military in response thanked the Chief for the care of national defense. However, one should not think that the purchase of a new frigate was a tribute to the officers and a sign of the President’s fear. Nearly everyone who occupies high positions in the country is his relative. According to the President, “the acquisition of this equipment does not mean that this country wants regional or territorial supremacy.” The bottom line is that it intends to minimize the “permanent threat” at any cost to protect themselves and their wealth left by the ancestors from the “envious neighbors”. He added that the new frigate is necessary, considering a large sea area of ​​Equatorial Guinea and the long border with Cameroon, Nigeria, Gabon, Sao Tome and Principe, and Angola. The military preparations of the country have become particularly noticeable in the last two years. Now, Equatorial Guinea is one of the most active in the field of defense procurement among the African countries. A few years ago the country’s “Air Force” virtually existed only on paper and included only civil and trainer aircraft. However, more recently it purchased two batches of Ka-29 and Mi-26, and four Russian Su-25, as well as five attack helicopters Mi-24 and one Mi-17 helicopter. The President did not forget about the army and acquired service mortars, Russian and Chinese artillery, and three older T-55 as well as approximately 40 different armored vehicles (BMP-1, BTR-152, and a small number of BRDM). In addition to this serious for such a small country like Equatorial Guinea armored park, in 2006 by order of the current President its soldiers have carried out an explicit act of piracy, capturing 15 Belgian APCs Pandur on their way to perform peacekeeping tasks in the Democratic Republic of Congo (DRC). As a result, despite the small size of its armed forces (2,500 people) in a purely technical sense it left behind most of its neighbors. However, the President of Equatorial Guinea fears not so much the revenge for the acts against the forces of the United Nations, but the envy of its neighbors. Due to the exploitation of the oil resources alone, the country in terms of GDP per capita (36,600 USD in 2009) came out on top in Africa and has become the 30th in the world in terms of these indicators, ahead of many Western countries. However, the true natural wealth of the country has still not been fully exploited. According to geologists, the country’s offshore fields have significant oil resources. Added to this are large and virtually untapped reserves of natural gas, timber, gold, bauxite, diamonds, and tantalum that caused bloodshed in the neighboring DRC, as well as entire forests of precious woods. It is no wonder that many may be tempted. Incidentally, the rule of Teodoro Obiang Nguema Mbasogo was not cloudless. The U.S. has repeatedly mentioned that he could face criminal prosecution “for corruption.” Back in 2003, the American magazine Parade has declared him”the sixth of the ten worst dictators of our time.” Three years later, according to Forbes, he was the eighth on the list of the wealthiest rulers in the world. PRAVDA.Rússia

7.7.12

Bissau: a patética desorientação da CPLP

Lisboa, 06 jul (Lusa) -- O secretário executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) reconhece que a organização foi "apanhada de surpresa com a posição" da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) sobre o golpe de Estado na Guiné-Bissau. As reações ao golpe militar registado a 12 de abril e que derrubou os governantes guineenses eleitos levaram a CPLP "a acreditar que a comunidade internacional estava alinhada sobre os mecanismos para a reposição da ordem constitucional" no país. "Nós fomos apanhados de surpresa com a posição, que nós consideramos diferente, por parte da CEDEAO", admite o secretário executivo, o guineense Domingos Simões Pereira, em entrevista à Lusa. Apesar disso, garante, a CPLP não quis "disputar a competência da CEDEAO" e manteve uma "posição responsável", voltando a pedir ao Conselho de Segurança da ONU que clarificasse as orientações. O organismo internacional respondeu que mantinha "a CEDEAO como principal interlocutor das autoridades da Guiné-Bissau". Desde essa altura, recorda Simões Pereira, "a CPLP tem participado em todos os esforços, em todas as reuniões promovidas pela CEDEAO, no sentido de encontrar uma solução para a Guiné-Bissau.