24.2.13
Jornal de Angola critica fortemente Portugal
24 de Fevereiro, 2013
O pesadelo da guerra terminou com a morte de Jonas Savimbi, o traidor da Pátria angolana até ao fim dos seus dias. Mas ontem como hoje ainda há entre nós uma minoria pouco esclarecida que tem saudades do colonialismo que serviu convictamente. Como serviu o “apartheid” e está pronta a servir tudo desde que esteja contra Angola e o seu povo. O mesmo se passa com a desvairada imprensa portuguesa e as elites corruptas políticas e económicas daquele país em profunda crise moral, acossado pelos credores e ao mesmo tempo a exibir tiques imperiais ridículos.
Uma parte significativa das elites políticas corruptas e intelectuais portuguesas fez tudo para que Angola não fosse um país independente. Se o plano aprovado na ilha do Sal por Spínola, Nixon e Mobutu tivesse resultado, hoje as elites portuguesas e a sua imprensa tratavam os angolanos como trataram durante décadas a UNITA. Já a ONU tinha aprovado pesadas sanções contra a organização de Jonas Savimbi e os seus dirigentes e Portugal era ainda um paraíso para os sancionados. A imprensa portuguesa apresentava Savimbi como um herói. Mário Soares, então presidente da República, tratava-o como um amigo e o seu filho João como compadre. Altos dirigentes políticos seguiram o exemplo e curvaram-se reverenciais diante dos servidores do colonialismo e organizados nas forças repressivas do regime de “apartheid” da África do Sul.
Nunca a imprensa portuguesa referiu que Savimbi foi um dos carcereiros de Nelson Mandela, ao colaborar com o regime racista da África do Sul. Ou que pôs as suas armas ao serviço da sangrenta guerra colonial. Os dirigentes da UNITA andaram décadas por Lisboa a traficar armas e diamantes e a tratar das suas negociatas criminosas. Mas nunca a Procuradoria-Geral da República Portuguesa ou os serviços de combate ao banditismo investigaram os traficantes e criminosos que circulavam livremente em Portugal. Muito menos os raptores e assassinos de cidadãos portugueses que viviam em Angola. Antes pelo contrário, muitos foram premiados com a atribuição da nacionalidade portuguesa e integrados em instituições e sociedades secretas para ficarem melhor protegidos.
Qualquer jornalista português sabe disso, mas todos se calaram. O império mediático português foi sempre um fiel servidor de Jonas Savimbi. Os jornais e canais de televisão do senhor Pinto Balsemão trataram a rede criminosa como se os seus membros fossem os seus heróis. Savimbi escolhia a dedo os jornalistas portugueses necessários às acções de propaganda para a guerra em Angola. Os nomes dos jornalistas a quem Savimbi pagava os seus serviços são conhecidos e continuam activos nas redacções. Mas mantêm um silêncio cúmplice até hoje. Alguns estão agora em lugares-chave das grandes empresas e passaram a ter como nova tarefa prejudicar ao máximo as relações luso-angolanas. Já o escrevi aqui e volto a repetir: a imprensa portuguesa foi responsável pelo prolongamento da guerra em Angola e as elites corruptas portuguesas apenas se servem dos angolanos. Por trás estimulam ataques violentos contra quem lhes dá a mão e oferece amizade desinteressada. Continuamos a lidar com uma chocante falta de carácter.
Um antigo ministro da Defesa português, Castro Caldas, voltou a pôr a mão na ferida. Confirmou o que todos sabíamos: Jonas Savimbi e a UNITA foram agentes das autoridades coloniais portuguesas, que armaram, municiaram e financiaram as suas operações para impedir a libertação de Angola. Pensava eu que face a mais esta confirmação oficial da traição, a actual direcção da UNITA fosse rever a sua posição de continuar a apresentar o fundador do partido como um patriota. Mas nada aconteceu. O defunto chefe da UNITA continua a ser glorificado pela desacreditada imprensa portuguesa e pela liderança do maior partido da oposição.
Oa recursos que foram roubados pela UNITA em Angola para pagar os serviços prestados pelos jornalistas portugueses ordena os silêncios e as cumplicidades em Portugal. Mas essa cobardia merece uma profunda indignação em Angola.
Por continuar ainda hoje, décadas depois da independência, a perseguição aos interesses de Angola em Portugal, soa mal e gera muita desconfiança quando vem a Luanda um ministro do governo de Lisboa afiançar que a amizade entre Portugal e Angola continua de pé e os investimentos angolanos são “bem vindos” em Portugal. Já começamos a acreditar que isso não é sincero. Mesmo quando o portador da mensagem é Paulo Portas, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros de Portugal, que é líder de um partido que nunca escondeu a sua simpatia por Jonas Savimbi e que foi director de um jornal, “O Independente”, que tanta desinformação verteu para a opinião pública sobre a nossa realidade.
Hoje Paulo Portas é um grande amigo de Angola e está a ser lançado para liderar a direita portuguesa em caso de as coisas correrem mal à actual coligação, o que mostra que é possível, afinal de contas, um entendimento com Portugal, se calhar igual ao Entendimento do Luena, para que se ponha fim, de uma vez por todas, às guerras e guerrinhas portuguesas contra Angola". José Ribeiro, director do Jornal de Angola
Bissau: Apenas mais uma resolução da ONU
SECURITY COUNCIL EXTENDS MANDATE OF UN OFFICE IN GUINEA-BISSAU FOR THREE MONTHS New York, Feb 22 2013 1:00PM The Security Council today extended the United Nations office in Guinea-Bissau for three months, and requested Secretary-General Ban Ki-moon to provide recommendations on its future mandate and any possible readjustment in the world body’s support to the West African nation.
In a resolution adopted unanimously by the 15-member body, the Council decided that the UN Integrated Peacebuilding Office in Guinea-Bissau (UNIOGBIS) will continue its work until 31 May of this year.
The Office, currently headed by the Secretary-General’s Special Representative, José Ramos Horta, was established by the Council in 2009 and tasked with promoting stability in the country, which has been beset by coups and political instability since it became independent in the early 1970s.
Last year, rogue soldiers seized power in a military take-over on 12 April – just days ahead of the country’s presidential run-off election – prompting calls from the international community for the return to civilian rule and the restoration of constitutional order. Recent incidents include an attack on a military base in October, which reportedly resulted in numerous deaths.
The Council today reiterated its demand to the armed forces “to submit themselves fully to civilian control.” It also urged the national authorities to take all necessary measures to protect human rights and put an end to impunity.
In addition, the Council requested Mr. Ban to continue to work through UNIOGBIS, in coordination with other partners, on the ongoing dialogue process among political parties, “to facilitate the early finalization of a broader political agreement for the restoration of constitutional order and the holding of free, fair and transparent elections.”
It also called on all stakeholders in the country to “deepen the internal political dialogue” to create a conducive environment for free, fair and transparent polls, acceptable to all, for a rapid return to constitutional order and the long-term stabilization of Guinea-Bissau.
The Secretary-General was also requested to submit his report with respect to the mission’s future mandate and possible readjustments to the Council by 30 April.
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23.2.13
A guerra no Kordofão do Sul (Sudão)
Il y a des guerres délaissées, celles dont on ne se souvient que par intermittence, à la faveur d'une flambée de violence plus spectaculaire que des morts au quotidien comptés en quelques unités. Et il y a d'autres conflits dont on ne parle pas ou peu, tout simplement parce que l'on ne peut y aller. Ce qui se passe au Kordofan du Sud depuis juin 2011 relève de cette catégorie. "Une guerre étouffée", écrit la photojournaliste Camille Lepage, qui a pu se rendre dans les monts Nouba. Une guerre qui oppose l'armée soudanaise, et ses milices affidées, au mouvement rebelle de l'Armée de libération des peuples du Soudan du Nord (ALPSN). Une "guerre étouffée" qui a déjà jeté sur les routes des dizaines de milliers de civils.
Le Kordofan du Sud est un des Etats du Soudan fédéral, frontalier du Soudan du Sud. Les populations y vivent une tragédie à huis clos du fait de l'interdiction d'accès décrétée par les autorités de Khartoum et des difficultés dressées par une rébellion élevée dans le culte de la clandestinité. Organisations non gouvernementales, agences des Nations unies et médias sont tenus éloignés de ce théâtre dramatique.
La guerre s'est rallumée en juin 2011 dans les monts Nouba après des élections locales contestées par une partie des habitants du Kordofan. Voilà pour le prétexte. Le contexte, à l'époque, est celui de l'accession à l'indépendance du Soudan du Sud à l'issue de plusieurs décennies de guerres contre le Nord durant lesquelles les populations des monts Nouba se battirent aux côtés des sudistes. Aujourd'hui, le conflit au Kordofan du Sud ressemble à une guerre par procuration entre les deux Soudans, qui nourrissent encore de lourds contentieux consécutifs à l'indépendance du Soudan du Sud en juillet 2011. Définition des frontières, partage des revenus pétroliers, intégration des populations sudistes au Nord sont autant de sujets explosifs qui menèrent Khartoum et Juba au bord de la confrontation directe en 2012. Sans doute les deux pays n'ont-ils plus les moyens financiers de se lancer dans une guerre frontale. Sans doute, en conséquence, les populations du Kordofan du Sud font-elles les frais d'une guerre intersoudanaise menée à travers un Etat-clé pour Khartoum et Juba.
LE MONDE
Os delírios de Teodoro Obiang
MALABO - O Estado de S.Paulo
Existem duas cidades dentro de Malabo, a capital da Guiné Equatorial. Uma vive na pobreza, com favelas, ruas estreitas e sem calçamento, esgoto a céu aberto e uma epidemia permanente de malária. Outra, têm avenidas largas e bem iluminadas, condomínios de luxo, hotéis imponentes, praias artificiais e até mesmo uma "vila presidencial", com dezenas de casas luxuosas para receber visitantes ilustres.
As duas cidades, Malabo velha e Malabo 2, convivem lado a lado, fruto da ambição e dos delírios de grandeza de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, presidente do país há 34 anos. Desde 2004, quando o país começou a ganhar dinheiro com a exploração do petróleo, o ditador - que derrubou o próprio tio em um golpe - decidiu investir no que chama de modernização do país e na tentativa de atrair estrangeiros para a Guiné Equatorial.
O Produto Interno Bruto per capita subiu para US$ 19 mil nos últimos 10 anos, graças ao petróleo, mas metade da população ainda vive na pobreza. Para o presidente, no entanto, Malabo 2 é a mostra de que "acredita no desenvolvimento da África". Malabo velha, no entanto, ficou entregue à miséria e aos mosquitos.
Despesas. Desde que começou a construção da nova cidade já foram gastos 580 milhões em prédios e infraestrutura que deixariam envergonhadas a maior parte das cidades brasileiras. O centro de convenções, todo de vidro e metal, com paredes cobertas de granito de cima a baixo, faz vizinhança com uma vila de 50 mansões construídas para receber os presidentes da União Africana em encontros no país, mesmo a Guiné Equatorial não sendo a sede permanente da UA.
Cada casa possui seis suítes e salões de recepção. Em frente ao Centro de Convenções, uma churrascaria de propriedade da primeira-dama, Constancia Mangue, traz a cada semestre 20 brasileiros para assar e servir o rodízio de carnes saboreadas por visitantes ilustres. Malabo 2, no entanto, não é a única extravagância de Mbasogo.
Convencido de que Malabo - uma ilha que fica, na verdade, no litoral de Camarões - é muito vulnerável, o presidente decidiu construir uma nova capital, no meio da selva. Planejada por um escritório de arquitetura português, a nova capital, Djibloho, tem linhas modernas, lagos artificiais, campos de golfe e até, possivelmente, um circuito de Fórmula 1 para atrair turistas - não existe menção a casas populares. Mbasogo sonha inaugurar Djibloho em 2020.
O eterno presidente da Guiné Equatorial domina seu país com mão de ferro. Estrangeiros - especialmente jornalistas - são proibidos de tirar fotos de prédios públicos. Seu filho, Teodorin Nguema Obiang, é também vice-presidente e ministro de segurança nacional, e sua mulher, Constancia, além da churrascaria é dona de supermercados e imóveis em Malabo. Teodorin, que passou o último carnaval em Salvador, onde patrocinou o bloco afro Ilê Aiyê, é procurado pela Justiça francesa por lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos estrangeiros. / L.P.
América do Sul estreita laços com Obiang
Tras una jornada de intensos debates, los mandatarios de la Cumbre América del Sur-África (ASA), finalizaron sus trabajos con un breve cierre de conferencia en el que participaron Evo Morales, Presidente de Bolivia, y el Jefe del Estado de Guinea Ecuatorial, S. E. Obiang Nguema Mbasogo. A lo largo del cierre y durante la rueda de prensa posterior, se definieron algunos de los resultados de la cumbre, como la aceptación de la ampliación del grupo, que había sido propuesta por el Presidente ecuatoguineano, con los países de Centroamérica y el Caribe. Además, en su intervención, el presidente de Nigeria, Goodluck Jonathan, también ha manifestado que la creación de la secretaría técnica será efectiva en todas las áreas establecidas.
El Presidente Evo Morales intervino para manifestar su alegría por haber participado en esta cita importante que le ha permitido “compartir las experiencias de nuestros pueblos, de dos continentes que tienen la misma historia, ya que en el pasado fueron sometidos, y saqueados sus recursos naturales y humanos”, dijo Morales. También hizo una especial comparación con Guinea Ecuatorial, “país que también había sido colonizado, al igual que Bolivia, por España”. Tras hacer un balance del desarrollo boliviano de los últimos años, Morales declaró que “después de tantos años de saqueos, en Bolivia hemos empezado a recuperar y nacionalizar nuestros recursos naturales. Los países industrializados nunca quieren que nos desarrollemos, y utilizan el narcotráfico, el terrorismo, la democracia, para intervenir en nuestros países, y poder apoderarse así de nuestros recursos humanos”.
También ponderó el trabajo realizado por el presidente Obiang en Guinea Ecuatorial, manifestando su sorpresa por haberse encontrado un país tan desarrollado y con tantas infraestructuras.
Por su parte, el Jefe del Estado de Guinea Ecuatorial sintetizó los objetivos que habían llevado a la creación de esta organización y el desarrollo de la misma, tras este evento: “Como un grupo de países que aspira a influir en la política internacional, hemos acordado privilegiar la cooperación sur-sur a fin de reforzar la unidad y solidaridad en torno a los objetivos comunes de desarrollo y justicia social que nos identifican”.
-“En este sentido, la puesta en marcha y consolidación de los lazos comerciales, a través de la inversión directa, y la creación de fondos sociales, para el turismo, educación, ciencia y tecnología, etc. constituyen la prioridad de la cooperación para el desarrollo que debemos entablar a partir de esta cumbre. Todas estas acciones sólo pueden tener su éxito total con la liberación del comercio entre ambas regiones, amparados por los acuerdos de protección reciproca de bienes y servicios entre los estados miembros. En conclusión, tenemos la firme convicción de que esta cumbre será un punto de inflexión que vitalice la cooperación entre Latinoamérica y África, para la emergencia de sus estados y su integración en el mundo de los países desarrollados”.
Con estas palabras quedó clausurada la III Cumbre de los Jefes de Estado y Gobierno de África y América del Sur.
Texto: Inés Ortega.
Fotos: Mansueto Loeri Bomohagasi.
Oficina de Información y Prensa de Guinea Ecuatorial.
18.2.13
Bissau. golpistas querem ficar mais três anos
Bissau (Lusa, 17 de Fevereiro de 2013) - Dirigentes políticos, militares e da sociedade civil da Guiné-Bissau debateram ontem no Parlamento o prolongamento do período de transição para mais seis meses ou três anos após o término do atual período, em maio.
Num debate dirigido pelo Presidente de transição, Serifo Nhamadjo, líderes partidários, as chefias militares e representantes das organizações da sociedade civil analisaram os passos a serem encetados no país tendo em conta a impossibilidade de se organizar eleições gerais em abril próximo.
Falando à imprensa no final dos debates, que duraram sete horas sem interrupção, Serifo Nhamadjo afirmou que “as partes estiveram na procura do meio-termo” sobre a prorrogação do período de transição, com uns a defenderem seis meses e outros mais três anos.
Para o chefe de Estado guineense de transição o tempo da “nova transição até nem é o mais importante”, desde que se saiba de concreto “quais os itens” que serão englobados nas várias reformas que devem ser realizadas no país.
Sobre o exercício de hoje, o Presidente de transição diz ter ficado encorajado com o diálogo “aberto e franco” entre os vários atores da vida do país, sublinhando que “os guineenses têm que ter coragem de conversar”.
“É esse o elemento que me motiva, que haja diálogo franco e sincero, frente a frente”, disse, Nhamadjo, que quer ouvir a opinião de todas as franjas da sociedade guineense antes de cimeira de chefes de Estado da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da Africa Ocidental) no dia 27 em Abidjan, na Costa do Marfim.
Na sequência do golpe de Estado de 12 de abril, protagonizado pelos militares, foi fixado o prazo de um ano para realizar eleições gerais, mas as autoridades de transição têm vindo a público admitir que vai ser impossível realizar eleições nesse período.
Em princípio, as eleições gerais deveriam ter lugar em abril próximo.
Na reunião de ontem, os militares, pela voz dos tenentes-coronéis Júlio Nhaté e Daba Na Walna, advogaram o prolongamento do período de transição, e consequentemente a realização de eleições, para três anos.
17.2.13
Uma opinião sobre a renúncia de Bento XVI
A história secreta da renúncia de Bento XVI
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris, para a Carta Maior. com br
Paris – Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro.
O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.
Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas.
Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.
O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente.
Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox.
Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.
A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke.
Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa.
Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.
Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira.
O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano.
Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado.
A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia.
Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres.
No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano.
Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.
Aí começou o infortúnio de Tedeschi.
Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco.
Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa.
Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.
Tradução: Katarina Peixoto
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