9.4.13
Bissau: Ramos-Horta começa a acordar para a realidade guineense
A Guiné-Bissau "enfrenta como Nação uma ameaça existencial, enquanto Estado" e as elites políticas e militares deviam aproveitar o aniversário de mais um golpe para fazerem um exame de consciência, defendeu hoje o representante da ONU. Num depoimento a propósito do primeiro aniversário sobre o golpe de Estado que a 12 de abril derrubou os governantes eleitos, o representante do secretário-geral da ONU em Bissau, Ramos-Horta, avisou também que a comunidade internacional está cansada e que há um "perigo real" de abandonar o país. Independentemente das razões que levaram ao golpe, disse o responsável, "a verdade é que se aprofunda a crise social e económica e o isolamento internacional da Guiné-Bissau".
"Por isso espero que, ao completar-se o primeiro aniversário do golpe e do regime de transição, as elites política e militar façam uma introspeção, um exame de consciência, e ganhem consciência de que a Guiné-Bissau realmente enfrenta como Nação uma ameaça existencial, enquanto Estado", alertou. É que, justificou José Ramos-Horta, sem um Estado forte, um Governo e instituições políticas sólidas e coesas, é "extremamente difícil a Guiné-Bissau sobreviver aos desafios regionais, às ameaças de crime organizado, nomeadamente dos cartéis de droga das mais variadas origens", e a ameaças de outro género como a extrema pobreza.
Outro aviso de Ramos-Horta é o de que a comunidade internacional, que sempre quis e quer ajudar a Guiné-Bissau, "já está também cansada e há um perigo real de a própria ONU, a União Europeia e outros amigos e parceiros tradicionais da Guiné-Bissau dizerem ´não mais´". Por isso, Ramos-Horta apelou aos políticos guineenses para que cheguem rapidamente a um acordo para um roteiro de transição que contemple o recenseamento eleitoral e o calendário para as eleições, que podem ser este ano "desde que as elites políticas se entendam".
"Dado os desafios que este país enfrenta, bem grandes, até digo existencialistas para este país enquanto Estado, que se entendam e que formem um Governo de grande inclusão o mais rapidamente possível", para haver eleições num clima pacífico e para que depois das eleições não hajam vencedores ou perdedores", disse. Após as eleições, acrescentou, o partido mais votado terá sentido de Estado e consciência da gravidade da situação que o país enfrenta, e terá consciência de que nenhum partido sozinho, nenhuma elite partidária sozinha, pode resolver os problemas do país. "Deem a mão" e formem um Governo de grande abrangência, pediu Ramos-Horta, acrescentado que só assim se pode passar a uma segunda fase, após as eleições, de reorganização do Estado, com o apoio da comunidade internacional.
Tal é possível porque a Guiné-Bissau é um país potencialmente rico e com um "povo fabuloso" e pessoas "altamente qualificadas, disse Ramos-Horta, acrescentando: "por isso, neste ano em que se completa um aniversário de mais um golpe, triste, espero que façam uma reflexão séria, deem a mão e salvem a vossa Nação".O representante da ONU reafirmou que há tempo para organizar eleições ainda este ano e que as Nações Unidas continuam disponíveis para, em parceria com a União Africana e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, e com o apoio financeiro da União Europeia, liderar o processo eleitoral.
Publicada por António Aly Silva no blog Ditadura do Consenso
8.4.13
Sarkozy: negócios com o Qatar
In mid-December, some of Europe’s best-connected businessmen gathered in Paris to discuss a highly sensitive project: Nicolas Sarkozy’s entry into the world of private equity.
Seven months after the former French president lost power, he and his closest advisers were casting around for a new direction for his post-Elysée life that would parlay his political experience into a more lucrative career.
Mr Sarkozy, who has spent virtually all his professional life in politics, has long made no secret of his desire to make money after leaving office. While he began to raise his profile as a speaker at conferences, one idea had started to coalesce in his inner circle – a project that would take advantage of his close connections with a deep pool of capital far from the arrondissements of Paris in the deserts of Qatar.
The proposal was to set up a private equity fund backed by the Qatar Investment Authority, the $100bn sovereign wealth fund, that would invest in “European reconstruction” – companies in continental Europe, with a particular emphasis on Spain.
The December meetings were called to flesh out a plan. In attendance, were businessmen including Sir Simon Robertson, the British banker who was formerly president of Goldman Sachs Europe and now chairman of Rolls-Royce, and Paolo Scaroni, chief executive of ENI, the Italian energy group, and former chief executive of Pilkington, the UK glassmaker.
Alain Minc, one of Mr Sarkozy’s advisers, who is widely thought to be involved in many of the backroom intrigues in French business, had a central role in the plan, according to people familiar with the matter. On at least one occasion, Mr Sarkozy shared a meal with his potential business partners, cracking jokes to which his friends responded with loud laughter, an insider said.
The project looked promising: Mr Sarkozy had received a letter of intent from the QIA to commit €250m to the private equity fund, according to four people with knowledge of the pledge. It even had a mooted name, Columbia Investments. It would have an office in London in which the former president would visit one or two days a week, according to a person familiar with the matter. Mr Sarkozy held talks with at least one investment executive to join the firm as his other partner in the British capital, according to three people familiar with the matter.
Financial Times
5.4.13
O Euskera: uma língua africana, com raízes no Mali
Doce años de estudio han terminado por corroborar el auténtico origen del euskera. El idioma que hasta el momento se consideraba el más antiguo de Europa tiene sus raíces y mantiene múltiples similitudes con el dogón, hablado en Mali.
El filólogo Jaime Martín Martín, licenciado en Filología Románica por la universidad Complutense, ha sido el encargado de desarrollar este estudio en el que se ha realizado una comparación léxica y estructural del idioma demostrando que el orden de las palabras en la frase es idéntico.
Hasta el momento el euskera era considerado el idioma europeo más antiguo. Este nuevo parentesco lo certifica como un idioma africano perdiendo así este récord.
Martín Martín, en una entrevista para laCadena SER, hablaba de que más de un 70% del total de palabras son comparables por lo que, al superar el 50%, puede hablarse de parentesco con palabras muy similares como bede/bide-caminoo beri/bero-caliente.
“El dogón sólo se diferencia del vasco en que no tiene declinaciones ni sujeto ergatibo”.
“Aporto pruebas válidas y suficientes que permiten pensar que el dogón sea la lengua originaria del vasco”.
Es decir, el euskera, considerado hoy el idioma más antiguo de Europa, no es, en su orígen, europeo, sino africano.
“El dogon es probablemente un nuevo miembro de la familia lingüística que H.G.Mukarovsky en 1965 denominó Euro-sahariano, una base esencial para poder confirmar la supuesta difusión del vascón por toda la Península Ibérica y un valioso elemento de apoyo para la conocida tesis vascónica de T.Vennemann y de Kalevi Wiik”.
El profesor es licenciado en Filología Románica por la Universidad Complutense, en la que también hizo el curso de Doctorado.
Durante cuarenta años ha sido profesor numerario de Lengua y Literatura en el instituto Cervantes de Madrid.
Entre sus trabajo, destaca el “Diccionario de expresiones malsonantes del español” publicado por Ediciones Istmo.
(Revista vocesdelmisterio.wordpress.com)
Bissau: Bubo foi detido pelos EUA
O anúncio, ontem à noite, da detenção do almirante José Américo Bubo Na Tchuto, por agentes norte-americanos encarregados do combate ao narco-tráfico, foi uma autêntica bênção para as populações da Guiné-Bissau, uma vez que se trata de um dos elementos mais desestabilizadores do país, a par do actual Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, general António Indjai.
Apontado já há três anos pela Administração Obama como um dos grandes narco-traficantes da África Ocidental, o almirante Bubo Na Tchuto, antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, que disputava a Indjai a liderança de todos os militares guineenses de etnia balanta, foi finalmente detido, juntamente com quatro outras pessoas, em águas internacionais, muito perto de Cabo Verde.
Esta detenção de um dos homens mais ambiciosos e perigosos da Guiné-Bissau pode ser um sério aviso às pessoas sem escrúpulos que da Venezuela, da Colômbia e de outros territórios latino-americanos procuram fazer chegar drogas à Europa, valendo-se para isso de regimes africanos fracos ou que não dispõem de meios para controlar a circulação de cocaína e de outros produtos igualmente desestabilizadores.
Ao encaminharem José Américo Bubo Na Tchuto para as ilhas de Cabo Verde, com as quais Washington mantém um excelente relacionamento, os agentes norte-americanos demonstraram que acordaram tarde, mas finalmente acordaram, para uma autêntica cruzada internacional que é necessário fazer contra os narco-traficantes que usam o Senegal, a Gâmbia, a Guiné-Bissau e a República da Guiné para o seu desejo de inundar de droga a Europa Ocidental.
Bubo Na Tchuto, o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Ibraima Papa Camará, e muitos outros militares guineenses têm sido suspeitos de fazer narco-tráfico, o qual até aumentou substancialmente desde que há um ano António Indjai deu um golpe de estado, impedindo a segunda volta de umas presidenciais que iriam levar à chefia do Estado o então primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, líder do PAIGC.
A constante intromissão de militares corruptos e permeáveis ao narco-tráfico na vida política da Guiné-Bissau tem sido uma das grandes pragas de um país muito frágil, onde nem sequer um quarto da população se encontra devidamente alfabetizada ou está civicamente preparada para resistir a toda uma série de manobras ilegais que se têm verificado ao longo de décadas.
Maldita cocaína
O jornal The New York Times chegou a considerar o que se verificou faz agora um ano como "um golpe da cocaína"; ou seja, uma jogada avançada dos narco-traficantes para melhor controlarem o país, onde existem numerosos pistas de aterragem e dezenas de ilhas sem o menor controlo.
"Dizem que sou um narco-traficante. Se têm provas, apresentem-nas", afirmou há tempos, em ar desafiador, o general António Indjai, que mantém um estilo de vida muito superior ao que permitem os seus proventes de Chefe do Estado-Maior de umas Forças Armadas que se queixam de serem muito pobres.
O Presidente interino Manuel Serifo Nhamadjo e o Governo de Transição surgem neste contexto como uma mera fachada de legalidade, num quadro dominado por militares como Bubo Na Tchuto, Papa Camará e António Indjai, não se tornando pois possível desenvolver um ambiente político mais saudável enquanto toda esta camada castrense não passar definitivamente à reforma.
Só com a ida para a cadeia de muitas pessoas do jaez de José Américo Bubo Na Tchuto é que toda uma frota de bimotores deixará de sobrevoar as bolanhas da Guiné-Bissau e a quietude idílica das ilhas Bijagós, muitas das quais não são habitadas.
Muito condescendente, o novo representante local das Nações Unidas, José Ramos-Horta, não tem querido dar toda a devida importância a este problema gravíssimo do narco-tráfico, que tem feito com que a Guiné-Bissau adie por demasiado tempo a exploração dos recursos naturais em que é rica; tanto em terra como no mar.
Se a ONU é demasiado frouxa, ou se acaso se encontra manietada por excessos burocráticos, ao menos que haja alguém, seja onde for, que seja capaz de libertar as populações guineenses das múltiplas pragas que sobre elas se têm abatido.
4.4.13
Bissau: pela pena de José Ramos-Horta
Depois de 12 dias de uma verdadeira maratona de viagens e reuniões – Abuja (Nigéria), Yamoussukra (Costa do Marfim), Dakar (Senegal), Genebra e Mt Pellerin (Suíça), Bruxelas (Bélgica) e Lisboa (Portugal) – regressei a Bissau, no Sábado, dia 9 de Março. Ja estou de volta ha duas semanas, mergulhei logo de novo na realidade da minha missao. Fui escrevendo estas linhas, roubando tempo aqui e acola. E desta vez decidi escrever na lingua de Fernando Pessoa embora o poeta deve e estar a dar voltas no caixao ao saber que estou a invocar o seu nome.
E hoje, Domingo, decidi explorar a cidade de Bissau, sem dizer nada ao Hilário, um argentino muito simpático, um dos seguranças da ONU, que fala bem o crioulo. Ele vai ficar bravo quando souber que sai de casa esta manha, a pé, sem o ter alertado. Além disso eu tinha prometido telefonar caso decidisse sair. Eu nem alertei com tempo os quatro Timorenses que estão comigo pois nao queria que eles por sua vez alertassem o Hilário.
Alias, desde que os politicos-Cardeais la do Vaticano elegeram um Argentino para Papa, o Hilario ficou muito, muito mais babado. Deixou de ver o futebol para ver o Papa Argentino. Eu apostei e rezei por um Africano ou Asiatico.
Esta manha decidi caminhar, explorar o bairro perto de onde vivo sem incomodar o chauffeur da ONU que tem direito a um Domingo de repouso como Deus determinou – Trabalha-se seis dias e reserva-se o sétimo para descanso. Se Deus, o Todo Poderoso que criou o Mundo, ficou cansado ao sexto dia e decidiu tirar ferias o chauffeur da ONU, o Argentino, os Portugueses e Ganenses que velam pela minha segurança também tem direito a repouso.
Tinha eu 7 anos de idade, na Missao Católica de Soibada, quando a minha inocência e mente inquisidora me custaram uma bofetada do Pe. Januário. Perguntei ao bom padre açoriano para me explicar melhor como e que o Santo Deus Todo Poderoso nao criou o Mundo num so dia? E mais: mas Deus também se cansa como nos? Ainda por cima Ele so tinha trabalhado seis dias e meteu ferias! Nos, crianças tínhamos que trabalhar nove meses em Soibada, nao so estudando mas também limpando a horta de milho, cavar mandioca e apanhar lenha para a missão. E so meses depois tínhamos ferias! Deus so trabalhou seis dias e meteu ferias! Nao achei isso justo. O Pe. Januário, normalmente muito simpático, deu-me dois estalos e vi mesmo estrelas! E ameacou-me com o Inferno! E para me livrar do Inferno receitou-me logo um terco e tres atos de contrição. E para garantir mesmo minha segurança, dobrei a receita, como de resto eu fazia sempre antes de dormir; dobrava sempre as orações recomendadas pelo padre. Sentia-me mais seguro caso morresse essa noite! Nunca mais me atrevi a fazer perguntas mesmo quando a curiosidade, as perguntas e duvidas eram muitas.
Claro esta manha nao sai completamente sozinho. O Iso e o Cap. Francisco que estão na mesma vivenda que eu me acompanharam. Mas nenhum Timorense que me acompanha desde Timor-Leste esta armado. Eu dizia a eles que na GB quando ha probemas entram a funcionar bazukas e morteiros; as pistoletas da nossa gloriosa PNTL nao iriam meter medo aos homens do Gen. Indjai e aos alegados baroes da droga. Confio sempre mais no Anjo da Guarda destacado por Deus para olhar por mim.
O Florisberto, Isolino, Ismael Abo e Cap. Francisco sao otimos elementos, muito disciplinados, dedicados, ja conhecem o bairro e fizeram muitas amizades. A Dona Filomena tambem esta aqui comigo. Procurou emprego no MNEC em 2003 quando eu era Ministro. Ela vinha muito chorosa e ofereceu-se para fazer limpeza. Esta comigo desde essa data, muito trabalhadora, timida, educada.
A primeira paragem que fiz foi no Hospital Simao Mendes, a uns 10 minutos a pé da casa. Hesitei entrar porque pensei que algum chefe do hospital poderia ficar zangadíssimo com um estranho a passear pelos corredores do hospital sem ser convidado. Mas decidi arriscar e subi para o primeiro piso. Tinha visitado esse hospital em 2003 e lembro que na altura ja estava muito degradado e agora esta mais maltratado ainda.
Primeiro observei o edifício por fora que parece ter uma estrutura sólida, do antigamente, do tempo portugues. Naquela época parecia que havia melhores construtores e mais gente honesta…em Portugal e pelo mundo fora.
Um cheiro forte de “xixi” me acolheu mal chego ao primeiro piso. Vi o chão sujo, paredes amareladas, do tempo, humidade, chuva e poeira. Espreitei para dentro dos quartos. Neste domingo de manha o hospital parecia estar calmo. Nao vi gente de bata branca, médicos ou enfermeiros em lado nenhum. Claro que deviam estar em outros lugares do hospital a ver seus pacientes.
Medicos Cubanos e nacionais trabalham ali em condicoes extremamente precarias. Ha mais de 30 medicos Cubanos na GB comparados com os 200 que estao em TL. Mas aqui estes Medicos, autenticos missionarios, trabalham e vivem em condicoes extremamente precarias. Pergunto: se Medicins Sans Frontieres, UNICEF e Mother Teresa receberam o Premio Nobel de Paz porque e que a Brigada Medica Cubana nao deveria receber?? A Brigada existe ha mais de 40 anos e ja salvaram dezenas de milhares de vidas em mais de 100 paises!
Francamente o nosso hospital Nacional Guido Valaderes (HNGV), e muito mais moderno, funcional, limpo. Fui visitante muito frequente no HNGV por isso digo que o nosso esta muito, muito melhor, com uns 50 medicos, muito limpo, com bom equipamento e funcionamento. Nao quer dizer que HNGV funciona em perfeição, longe disso! Mas comparativamente com o Hospital Simao Mendes de GB, HNGV passa o teste!
Claro, pergunto sempre: mas porque ninguém, algum amigo, Brasil ou Portugal, ofereceu a reabilitação completa do hospital e equipa-lo? Ja la vão 40 anos desde a independência deste pais! Claro, nao se pode exigir tudo de Portugal que ja muito tem feito embora nem sempre sabe fazer bem. Os Portugueses sao gente muito generosa. Foram escorraçados das colónias em 1974-75 mas nao guardaram rancor e nao viraram as costas. Apesar de que Portugal nao e uma Alemanha rica, nunca regateou ajuda solidaria as suas ex-colónias. E os colonizados de seculos, raptados e acorrentados em navios-escravos rumo ao Brasil também nao guardam rancor dos seculos de colonização. O africano realmente tem um coração enorme.
Confesso, a minha visita nao programada ao hospital nao durou sequer 20′. Sai e continuamos o passeio. Pelo caminho alguns Bissau-Guineenses criaram-me a ilusão de que eu estava em Dili pois muita gente me me cumprimentava com aquele sorriso limpo do Bissau-Guineense, sincero, inocente.
Um pequeno ajuntamento se fez ali a uns metros do hospital quando alguém me saudou; parei e houve apertos de mão e mais gente se aproximou. Desejaram-me “boas vindas” a sua terra. So queriam que me sentisse “bem-vindo” na sua casa.
Continuei a caminhada, apreciando as casas da época colonial, a maioria delas degradadas, nao habitáveis, outras habitáveis. Fez-me pensar que se houvesse dinheiro para restaurar todas as casas da época colonial, Bissau poderia ser um bom destino turístico.
Chegamos perto do porto de Bissau. Ali apresentaram-se algumas vendedoras de camarão, peixe e ostras. Os camarões eram enormes, tentadores. Comprei também alguma banana e papaia mas o meu interesse estava no camarao! Comprei o suficiente para durar semanas, comer até enjoar! Nao sei quanto paguei. Mas mais barato que em Dili onde eu era sempre vitima dos vendedores pé descalço, pois por ser eu, “Presidente dos Pobres”, tinha sempre que pagar mais, muito mais.
Ah em Timor-Leste nao temos camarão assim. A nao ser numa lagoa em Natarbora. No nosso patriotismo provinciano o Timorense que vai para terra estrangeira diz sempre que o que temos e sempre melhor!
Lembrei-me de um Timorense, exilado em Moçambique nas decadas de 60-90, pelo seu envolvimento no motim anti-Portugal de 1959. Para la foi deportado pela PIDE e por la ficou. Creio que a PIDE se esqueceu dele mas o pobre irmão Timorense nao tinha meios para regressar a sua terra bendita no outro lado do Indico. O seu ganha-pão era um pequeno negocio de venda de carvão de cozinha. E declarava solenemente que o carvão de TL era muito melhor que o de Moçambique.
Segundo esse exilado que se fixou em Terras Mocambicanas tudo que era Timorense era sempre “mais” que o Moçambicano. Uma vez, alguém brincou com ele e disse: “Ah mas o Moçambicano e mais preguiçoso que o Timorense”. Fiel aos seus, respondeu muito orgulhosamente: “Nao! Os Timorenses sao mais preguiçosos!” Logo a seguir deu conta de que este “mais” nao abonava os Timorenses e esclareceu: “Ah nao nao nao. O Moçambicano e mais preguiçoso”.
Outro patriota que conheci foi o Presidente Fradique de Menezes, de Sao Tomé e Príncipe, pais-miniatura, de ilhas paradisíacas, segundo dizem os visitantes. Fradique era homem de negocios bem sucedido, poliglota, charmoso e com grande sentido de humor. Super-patriota, visitando TL quando eu era Ministro de Negócios Estrangeiros, dizia que as bananas, laranjas, cafe, peixe, de STP eram muito melhores e bem maiores que os de TL. Nao havia nada que STP nao tivesse que nao fosse maior e melhor! Sentados os dois num restaurante a beira mar em Dili, Fradique de Menezes dizia como o mar de STP era mais azul e a areia mais fina!
Feitas as compras O Cap. Francisco meteu-se num taxi e regressou a casa para refrigerar os camarões. Continuei o passeio com o Iso.
Ali perto do porto vi um senhor europeu, de porte pequeno, cabelos brancos, ar simples, que a certa distancia me observava, hesitando se devia ou nao abordar-me. Achei-o com ar simpatico e cumprimentei-o. Nascido na GB, considera-se Guineense e passa o ano entre Portugal e GB. Vem a GB quando em Portugal começa a arrefecer e aqui passa alguns meses do ano. Pedi seu contato e prometi convida-lo quando eu decido saborear os camarões. Entretanto, perdi o seu contato. Pena.
Retomei a caminhada pelas ruas esburacadas, de terra vermelha, com pouca limpeza, sempre com algum cheiro desagradável. Vi uma casa de cabeleireiro, tomei nota para daqui a um mês quando precisar.
Passamos em frente a uma discoteca e o Iso disse que ele e o Loro já vieram a esse local; disse ele, o lugar era muito simpático, tranquilo, sem desordem, como em Dili, disse ele onde havia sempre pancadaria. Nunca vou a discotecas, nem em TL. Nos anos 70 ou 80 eu cheguei de ir uma ou outra vez a algumas discotecas bem famosas da epoca como o Studio 54. Mas nos ultimos 10-20 anos raramente falto a uma opera em Sydney, Berlim ou Nova Iorque. Numa ida a Viena ha dois anos a Sandra Pires, cantora de opera e pop Timorense, que fez carreira na cidade de Strauss levou-me a uma opera. Mas o jet-leg venceu e tive que abandonar a Sandra Pires ao intervalo. Ela nao deve ter ficado muito impressionado.
Em Lisboa, a julgar pelo que ouvi em encontros que tive na semana passada, a situação de direitos humanos é “tenebrosa”, o medo se instalou, há violações frequentes, sistemáticas, tortura. E este pais é o unico “Narco-Estado” do Mundo.
Mas a agencia onusina UNODC, sediada em Viena e com um pequeno escritório regional em Dakar, progenitora do termo “Narco-Estado” e da diabolizacao da Guine-Bissau, nao conseguiu convencer-me de que todos os agentes do Estado estão directamente implicados no narco-trafico.
O problema existe em muitos paises da África como em quase toda a Ásia, América Latina, em maior ou menor dimensão. Nao existe um cartel originario deste prqueno pais e o consumo da droga aqui ainda e muito baixo. Quando falei com um diplomata ocidental baseado em Dakar e conhecedor de toda a região, ele nao validou as alegações de UNODC e disse que o consumo da droga na GB aumentou “dramaticamente” porque havia “cinco consumidores e agora aumentou para 10; isto representa 100% de aumento mas nao deixam de ser apenas 10 pessoas”.
A Guine-Bissau nao produz droga e o consumo e baixo. Ha sim grupos que funcionam como correio e pelo trabalho recebem umas migalhas e já ficam muito contentes. Individuos de outras nacionalidades – Colombianos, Bolivianos, Peruanos, Libaneses, Marroquinos e Nigerians – os profissionais do negocio. Face a eles, o Bissau-Guineense e um amador que se contenta com migalhas mas que fica com a fama!
O maior problema da GB e a pesca ilegal em que sobressaem os Europeus. A rapina das riquezas marinhas dos povos da costa ocidental africana faz-se com total impunidade mas os Europeus nao falam muito deste flagelo porque os salteadores sao grupos europeus.
Dentro de dias escreverei mais. Mas em Ingles. Qualquer dia ja escrevo em crioulo. Rezo por todos, pela vossa saude. Rezei muito pela Ligia, atacada pelo cancro em tantas frentes! Mas falei muito a serio com Deus e ela esta a recuperar bem! O Jose Alberto tambem foi atacado pelo cancro. Tambem rezei muito, falei a serio com Deus, e as ultimas noticias apontam para primeiros sinais de melhoria.
Jose Ramos-Horta
2.4.13
Zimbabwe: a ZANU é quem mais ordena
Tsvangirai’s MDC didn’t do enough to prevent the new basic law giving Mugabe’s party the right to decide who succeeds him.
The real winners of the constitutional referendum were the hardliners of the Zimbabwe African National Union-Patriotic Front. They now have a document that enshrines ZANU-PF's supremacy, whatever happens to President Robert Mugabe. Prime Minister Morgan Tsvangirai's Movement for Democratic Change-T went lame in the final lap but is content with the second prize: hefty golden parachutes on leaving office. MDC-N splinter party leader Welshman Ncube got the wooden spoon....
Africa Confidential
----E ainda há quem diga que a África está a avançar; a libertar-se do subdesenvolvimento! Custa-me muito a acreditar. Mas a verdade é que há tantas formas de se viver no continente africano que existe sempre o risco de se fazerem generalizações.
Bissau: um ano depois do golpe de 12 de Abril
Violação dos direitos humanos e aumento substancial do narcotráfico
por Jorge Heitor/LusoMonitor, em Apr 2, 2013
Completando-se no próximo dia 12 de Abril um ano sobre o golpe de estado que derrubou o regime existente na Guiné-Bissau, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), a União Africana, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a União Europeia e as Nações Unidas deram conta das violações dos direitos humanos que têm estado a ser cometidas e de um aumento substancial do tráfico de drogas.
Uma missão conjunta daquelas entidades esteve no pequeno país e considerou incontestável que os problemas da impunidade, das violações dos direitos humanos e da constante intromissão das Forças Armadas na vida política existem desde há muito tempo.
Por outro lado, notou que as tropas oriundas da guerrilha que lutou pela independência não conseguiram transformar-se em Forças Armadas ao serviço do Estado, antes procurando ter sempre um papel importante na gestão do mesmo.
Além disso, notou que os políticos costumam instrumentalizar os militares, encorajando-os por vezes a derrubarem os seus adversários, numa terrível promiscuidade entre dois sectores da sociedade que deveriam ter papéis bem distintos um do outro.
O orçamento total apresentado agora pelo Governo de Transição para garantir a organização de eleições credíveis é de 32 milhões de euros; mas esse dinheiro só aparecerá se a comunidade internacional estiver disposta a ajudar um país que não se tem mostrado minimamente digno disso.
Hoje, como há sete ou oito anos, continua a falar-se da necessidade de reformas nos sectores da defesa, da segurança, da justiça e da administração pública, combatendo-se a impunidade e o crime organizado.
Tudo isto é muito bonito de se dizer, mas dificílimo de concretizar, num território onde não existe verdadeira consciência nacional nem sequer um quarto da população que se consiga expressar fluentemente na língua oficial, o português.
As eleições, sejam elas legislativas ou presidenciais, acabam sempre por se transformar numa panaceia para problemas que têm décadas de existência, pois que radicam no facto de, em 1950, 1960 ou 1970, as populações fulas, mandingas, balantas, manjacas e outras não terem sido devidamente preparadas para se unificarem numa só Nação guineense.
A doutrina de Amílcar Cabral pode ter sido muito interessante, do ponto de vista teórico, mas não é o simples pensamento de um só homem que em 15 ou 20 anos faz um país, com pés para andar. Tal como uma só andorinha não faz a Primavera.
Enquanto 25 ou 30 por cento dos guineenses, pelo menos, não estiverem devidamente alfabetizados, escrevendo e lendo como deve de ser, completando um sólido ensino secundário, será muito difícil de acreditar que termine a violência a que até hoje temos assistido.
A Guiné-Bissau continua a ser um projecto adiado, desde que em 1973 o PAIGC proclamou de forma unilateral e precoce a sua independência.
*Jorge Heitor trabalhou durante 25 anos em agência noticiosa e depois 21 no jornal PÚBLICO, tendo passado alguns períodos da sua vida em Moçambique, na Guiné-Bissau e em Angola. Também fez reportagens em Cabo Verde, em São Tomé e Príncipe, na África do Sul, na Zâmbia, na Nigéria e em Marrocos. Actualmente é colaborador da revista comboniana Além-Mar e da revista moçambicana Prestígio. Este artigo foi-lhe pedido pelo site LusoMonitor.
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