30.11.14
Homenagem a Carlos Drummond de Andrade
Se tento comunicar-me, o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. Assim escreveu Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e assim o penso, o sinto, muitas vezes eu.
Devo seguir até ao enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? perguntou o poeta mineiro, que um dia chegou a ler uns parcos versos meus, que lhe foram mostrados por um amigo comum, o Eduardo Chianca de Garcia. E com essas perguntas me identifico.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Que poderia ele; e que posso eu fazer?
Perdi os melhores amigos. Já não tento qualquer viagem. "Sinto que o tempo sobre mim abate sua mão pesada. (...) Uma aceitação maior de tudo, e o medo de novas descobertas".
Se eu pudesse recomeçar os meus dias! Usar de novo a minha adoração pelos deuses que tive. "Vejo tudo impossível e nítido".
E depois das memórias vem o tempo trazer novo sortimento de memórias, até que, fatigado, me recuso, como ele, e não saiba já se a vida é ou se de facto foi.
E agora, José? E agora, Carlos? E agora, eu?
Jorge Heitor 30 de Novembro de 2014
29.11.14
Há milhares de escravos no Reino Unido
There could be between 10,000 and 13,000 victims of slavery in the UK, higher than previous figures, analysis for the Home Office suggests.
Modern slavery victims are said to include women forced into prostitution, "imprisoned" domestic staff and workers in fields, factories and fishing boats.
The figure for 2013 is the first time the government has made an official estimate of the scale of the problem.
The Home Office has launched a strategy to help tackle slavery.
It said the victims included people trafficked from more than 100 countries - the most prevalent being Albania, Nigeria, Vietnam and Romania - as well as British-born adults and children.
Data from the National Crime Agency's Human Trafficking Centre last year put the number of slavery victims in the UK at 2,744.
The assessment was collated from sources including police, the UK Border Force, charities and the Gangmasters Licensing Authority.
The Home Office said it used established statistical methodology and models from other public policy contexts to estimate a "dark figure" that may not have come to the NCA's attention.
It said the "tentative conclusions" of its analysis is that the number of victims is higher than thought.
Concerted action
The Modern Slavery Bill going through Parliament aims to provide courts in England and Wales with new powers to protect people who are trafficked into the countries and held against their will. Scotland and Northern Ireland are planning similar measures.
BBC
Egipto: Boas notícias para Mubarak
A court in Egypt has dropped the case against former President Hosni Mubarak of conspiring to kill protesters during the 2011 uprising against him.
The courtroom erupted in cheers when the judge concluded Mubarak's retrial by dismissing the charges which relate to the deaths of hundreds of people.
He was also cleared of a corruption charge involving gas exports to Israel.
Mubarak, 86, is serving a separate three-year sentence for embezzlement of public funds.
The court, which met at a Cairo police academy, also cleared Mubarak's former Interior Minister, Habib al-Adly, and six other security officials of wrongdoing over the deaths in 2011.
Mubarak and his former interior minister were convicted of conspiracy to kill and sentenced to life in prison in June 2012 but a retrial was ordered last year.
'Same regime'
Relatives of those killed in 2011 had awaited Saturday's verdict with trepidation.
Amal Shaker with a photo of her son Ahmed, killed during the 2011 uprising, in Cairo, 25 November Amal Shaker with a photo of her late son Ahmed: "Youth that were like flowers were killed"
Mahmoud Ibrahim Ali, whose wife was killed, had little faith in the judiciary, believing it simply did the government's bidding.
"The regime is the same," he told AP news agency. "Names have changed but everything is the same.''
Amal Shaker, mother of 25-year-old Ahmed who was fatally shot in the back during the 2011 uprising, said before the announcement that she was still waiting for justice.
"Youth that were like flowers were killed," she told AP news agency. "Four years have passed, where is the trial?"
Mubarak's elected successor as president, Islamist Mohammed Morsi, lasted only a year in power before being ousted by the military in July 2013 during mass anti-government protests.
Army chief Abdul Fattah al-Sisi was subsequently elected in his place and under his rule, TV stations and newspapers have largely dropped criticism of the Mubarak era, correspondents say. BBC
28.11.14
A conjugação do verbo rapinar
Encomendou el-rei D. João, o Terceiro, a S. Francisco Xavier o informasse do estado da Índia, por
via de seu companheiro, que era mestre do Príncipe; e o que o santo escreveu de lá, sem nomear
ofícios nem pessoas, foi que o verbo rapio na Índia se conjugava por todos os modos. A frase
parece jocosa em negócio tão sério, mas falou o servo de Deus como fala Deus, que em uma palavra
diz tudo. Nicolau de Lira, sobre aquelas palavras de Daniel: Nabucodonosor rex misit ad
congregandos satrapas, magistratus et judices, declarando a etimologia de sátrapas, que eram os
governadores das províncias, diz que este nome foi composto de sat e de rapio: Dicuntur satrapae
quasi satis rapientes, quia solent bona inferiorum rapere: Chamam-se sátrapas, porque costumam
roubar assaz. E este assaz é o que especificou melhor S. Francisco Xavier, dizendo que conjugam o
verbo rapio por todos os modos. O que eu posso acrescentar, pela experiência que tenho, é que não só
do Cabo da Boa Esperança para lá, mas também das partes daquém, se usa igualmente a mesma
conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio, porque furtam por todos os modos da arte,
não falando em outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato nem Despautério. Excerto do Sermão do Bom Ladrão, do Padre António Vieira 28 de Novembro de 2014
27.11.14
Portugal: As promessas por cumprir
Começamos um novo ano, com alguns 850.000 desempregados, mais do dobro do que eram há oito anos; com centenas de milhares de pessoas a ganhar menos de 500 euros mensais, largas centenas de sem-abrigo, cegos a pedir no metropolitano, romenos e búlgaros andrajosos a pedir pelas ruas...
Este é o retrato do Portugal que temos, com seis ou sete milhões de cidadãos a auferir muito pouco e talvez três milhões a viver razoavelmente bem, com salários acima dos 1.980 euros, boas residências, carro, férias no estrangeiro.
Quer dizer: 27 por cento da população portuguesa será possivelmente rica ou remediada; mais de 60 por cento é decerto pobre, andando a pastar gado, a lavrar um pouco de terra ou a receber salários que são uma lástima.
Enquanto houver portugueses com menos de 500 euros de rendimento mensal, portugueses sem um bom sistema de saúde, reformas inferiores a 450 euros, a nossa consciência não se pode sentir tranquila.
Dirão alguns que progredimos bastante de há 40 anos para cá. É possível; pelo menos em alguns aspectos. Mas isso não chega. É preciso muito e muito mais, para cumprir os desígnios de todos aqueles que ao entrar 1974 sonhavam com um mundo melhor, mais justo, e julgavam ingenuamente que isso seria possível quando desaparecesse a governação de um só partido.
Só que, o problema não era apenas um determinado sistema político; mas sim muitos milhares de homens que são injustos e não se preocupam devidamente com o seu semelhante, desde que eles e as famílias estejam bem.
As esperanças da Primavera Marcelista e do Abril de 74 não foram integralmente concretizadas. Muita coisa continua por corrigir.
Jorge Heitor 29 de Dezembro de 2013
no Blog Comunidades.Net
Moçambique: Regresso ao confronto armado?
Salvo melhor interpretação, tudo parece indicar
que os principais líderes políticos moçambicanos
continuam determinados a, ciclicamente, repetir
os mesmos erros, quando podiam, querendo,
experimentar novos e diferentes.
Tudo indica, por assim dizer, que desta vez o
intervalo das hostilidades armadas será curto, aliás
curtíssimo, comparado com aquele que durou perto
de 21 anos, se nada de sério e rápido for feito.
Alguns dirão que sou pessimista, mas como em
momentos anteriores, alertas destes não faltaram,
porém foram ignorados e deu no que deu. Pena
que depois de centenas de cadáveres plantados na
terra os responsáveis dos grupos dinamizadores
da guerra se sentam, conversam, assinam pactos
de paz (podre) e convivem, enquanto os “pobres
coitados” já perderam os seus entes queridos e
bens materiais e nem são tidos nem achados.
Nos últimos tempos renovados sinais dão a
entender que Moçambique parece caminhar, de
novo, a passos largos para mais uma confrontação
militar, senão vejamos:
- fala-se de agrupamentos e reforços de contingentes
militares do Governo em diversas regiões
do país, com maior enfoque para o Centro (dirão
alguns que é legítimo exercício governamental).
- há dias multiplicou-se um “bate-boca” por causa
da visita do vice-ministro do Interior, José Mandra,
ao acampamento de onde em 21 de Outubro de 2013,
depois de lá viver exactamente um ano, o líder da
Renamo, Afonso Dhlakama, foi afugentado, a tiros,
por uma coligação das Forças de Defesa e Segurança
(FDS), em Sadjundjira. De novo, os legalistas dirão
que se trata de um exercício legítimo do Governo.
- foi noticiado que os “homens armados residuais
da Renamo” impedem a circulação de pessoas
e bens nas zonas sob sua influência/controlo
(eles alegam que desconfiam das reais intensões
de algumas delas).
- inevitavelmente, de seguida surgiram acusações
de parte a parte (Governo/Renamo) de violação
do pacto de cessação das hostilidades celebrado
a 5 de Setembro deste 2014 pelo actual Chefe de
Estado, Armando Guebuza, e o líder da Renamo
(seguido de uma animada patuscada de ambos e
outros convivas na Presidência da República).
- ... e quando alguns políticos tanto da Renamo
como do Governo/Frelimo (mesmo os que se acreditava
serem “reservas morais” sociais) cada vez que
abrem a boca, na media, falam apenas babozeiras
que só atiçam o ódio e animam a violência. Editorial do Correio da Manhã, de Maputo
25.11.14
Sócrates levou-nos ao descalabro
Quarta-feira, 25.06.14
Sejamos Consequentes
Por António Gomes Marques, Henrique Neto, Joaquim Ventura Leite e Rómulo Machado
Foi com alguma surpresa que na passada sexta-feira lemos em dois jornais, “Público” e i, que quatro notáveis militantes do Partido Socialista – Jorge Sampaio, Manuel Alegre, Vera Jardim e Almeida Santos – tomaram uma posição pública na actual contenda partidária do PS, pedindo urgência na solução do diferendo, posição que, intencionalmente ou não, é nas actuais circunstâncias favorável à candidatura de António Costa, mas dizendo, apesar de tudo, o que deveria ser para todos óbvio: “um partido não existe para si mesmo” e que “a prioridade é sempre Portugal”.
É esta frase óbvia que nos obriga a publicar este texto. Porque dificilmente haveria um outro tempo em que a frase tivesse tido maior oportunidade em ser usada do que durante os seis trágicos anos do descalabro económico, financeiro e social, que foi a governação de José Sócrates. Infelizmente, estas quatro relevantes personalidades do Partido Socialista mantiveram-se quase sempre caladas durante esse período, ou pior, colaboraram com as diatribes do então secretário-geral e primeiro-ministro, incluindo actos pouco democráticos, como alguns dos protagonizados pelo Dr. Almeida Santos. Nesse período sempre verificámos com angústia, como certamente muitos outros portugueses e socialistas, que o interesse nacional andou a reboque dos interesses partidários do grupo no poder, sem que isso tivesse conduzido a uma posição tão relevante como a que agora foi tornada pública.
Temos a plena consciência de que esta nossa tomada de posição é impopular em muitos sectores, fora e dentro do PS, na justa medida em que nos habituámos a venerar acriticamente os nossos maiores, aqueles que com maior ou menor razão e justiça se guindaram ao topo do poder político em Portugal. Fazemo-lo porque, como alguns outros socialistas, ganhámos esse direito durante esses seis anos, porque como militantes socialistas fomos ignorados nas nossas críticas, frequentemente vilipendiados, apenas por denunciar os erros, os jogos de interesses e os estragos que a governação do PS estava a infligir a Portugal. Escrevemos dezenas de textos, participámos em dezenas de programas de rádio e de televisão e, como alguns outros, sofremos o silêncio cúmplice de quem tinha a obrigação e o poder de evitar que o PS conduzisse Portugal para os braços da dependência internacional e para o sacrifício de milhões de portugueses.
Sejamos sérios, o actual governo de maioria PSD/CDS é um mau governo, que não sabe ou não quer evitar mais sacrifícios aos portugueses, mas não foi este Governo que preparou o terreno para os cortes salariais, para as privatizações feitas sem critério e para o descrédito das instituições. Fomos nós socialistas que o fizemos e quanto mais rapidamente o compreendermos melhor será para o PS e para Portugal. Inversamente, fazer voltar ao poder político os mesmos que no PS conduziram Portugal para o desastre, é um crime contra a Nação Portuguesa e um ultraje aos princípios e valores do Partido Socialista.
Lisboa, 24 de Junho de 2014
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