12.5.10

A economia timorense, nas palavras de Xanana

(...) Assim sendo, durante a maior parte deste período o Fundo Petrolífero foi investido apenas em títulos do Governo dos EUA.
Embora o fundo petrolífero tenha dado resposta às nossas necessidades imediatas, os
retornos podem e devem ser maximizados com uma estratégia de diversificação de acordo
com a melhor prática global aplicável às nossas condições em 2010.
De presente a nossa lei obriga a que 90% sejam investidos em títulos do Tesouro dos EUA, com os restantes 10% a poderem ser investidos noutras áreas de investimento.
Apraz-me anunciar que o Governo já deu início a uma estratégia prudente de diversificação segundo as leis actuais.
Aproximadamente cinco por cento estão actualmente a ser geridos pelo Banco de
Compensações Internacionais, com o destino dos restantes cinco por cento prestes a ser finalizado. Isto significa que fizemos tudo ao nosso alcance sob a lei para maximizar os retornos.
Encaramos isto como um passo positivo na boa gestão da riqueza da nação e como um
marco que assinala que estamos a entrar numa nova fase do nosso desenvolvimento.
É chegada a altura!
É chegada a altura para rever, analisar, procurar os melhores pareceres disponíveis e fazeruma reavaliação enquanto nação sobre como podemos seguir em frente.
Demonstrámos a nossa capacidade para gerir a economia, aumentar a despesa por meio de
orçamentos mais robustos e navegar as condições financeiras globais.
Em 2008 e 2009 gerimos com sucesso a economia timorense durante a Crise Financeira
Global (CFG) – conseguindo taxas de crescimento entre as mais altas de todo o mundo.

11.5.10

António Indjai, militar há 42 anos

O líder da rebelião do mês passado na Guiné-Bissau, António Indjai, disse estar disposto a ser o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, “se for chamado” para esse cargo.

“Se não for chamado, não vou, mas também não vou ficar mal com isso”, acrescentou em entrevista à agência Lusa o major-general Indjai, que era o vice-chefe do Estado-Maior General e que no dia 1 de Abril prendeu o titular do cargo, almirante Zamora Induta.

Interrogado sobre o processo de nomeação de novo Chefe do Estado-Maior, partindo do princípio de que Induta não será recolocado no lugar, o militar rebelde recordou que isso passa pelo primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior, actualmente em Cuba, onde há uma semana foi operado ao coração.

Quanto à reforma dos sectores de Defesa e Segurança, pedida pela União Europeia e por outras instâncias internacionais, Indjai reconheceu que há militares que estão nas Forças Armadas guineenses desde o início da luta armada pela independência, há 47 anos. Pessoas que pegaram em armas ainda adolescentes e que hoje em dia continuam nos quartéis.

“Até eu estou cansado desta vida. Entrei em 1968 (na luta armada do PAIGC) e até hoje estou aqui. Estou cansado, quero ir para a reforma. Basta que seja condigna”, disse o major-general, numa aparente contradição com a sua disponibilidade para chefiar o Estado-Maior.

Tendo chefiado a rebelião de Abril em sintonia com o contra-almirante Bubo Na Tchuto, que os Estados Unidos já acusaram de estar envolvido no narcotráfico, António Indjai pediu nesta entrevista que lhe mostrem provas de que “a Guiné-Bissau é um ponto de encontro de negócios de droga”.

Rumando contra todos os indícios de que figuras gradas das Forças Armadas se encontram envolvidas no tráfico, o major-general pediu “ao Governo, ao Estado e à comunidade internacional” que lhe dêem meios de “lutar contra a droga”.

Pelo menos, “um helicóptero em segunda mão, uma avioneta ou um barco”, pediu o rebelde que no dia 1 de Abril chegou a ameaçar publicamente de morte Carlos Gomes Júnior, que além de primeiro-ministro é o líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

“Há justiça no país”, disse ele, contra todas as evidências, pois que permanecem impunes muitos assassínios que têm vindo a ser cometidos, como o do Presidente João Bernardo Nino Vieira, em Março do ano passado. E acrescentou que o almirante Induta será julgado em tribunal militar.

“Se o tribunal verificar que não fez nada de anormal, será deixado no seu cantinho, quieto e sossegado”, prometeu o chefe rebelde contra o qual não fizeram nada nem o Presidente da República nem o Governo ou os juízes.

Aliás, argumentou Indjai, ele até teria começado pura e simplesmente por mandar Induta ficar “sentado em casa”. Só que, “como houve muita gente a reclamar, foi posto na prisão”.

Entretanto, uma maioria dos deputados guineenses já aboliu o cargo de vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, que é o que formalmente o responsável pelo levantamento de Abril continua a ser, num dos países mais pobres do mundo.

6.5.10

José Filomeno de Sousa dos Santos é uma aposta

José Filomeno de Sousa dos Santos, "Zenu", que ronda os 33 anos, é uma aposta do senhor seu pai, José Eduardo dos Santos, para um dia lhe poder eventualmente suceder como Presidente da República de Angola.
É isto o que crêem alguns dos que estão por dentro da política angolana e que não acreditam muito na viabilidade de a sucedão vir a recair no actual vice-presidente, Fernando da Piedade Dias dos Santos, "Nandó". Mas entretanto ainda muita coisa poderá acontecer.
Para já, existe a promessa de eleições em 2012, tanto para a Assembleia como, em associação a elas, para a Presidência da República.
O cabeça de lista do partido que vencer as legislativas ficará automaticamente na chefia do Estado, segundo prevê a Constituição que este ano foi aprovada e que tanta polémica suscitou.

-- (segue-se material do Clube K)
Dos filhos de José Eduardo dos Santos (JES) é o que aparenta ter uma visão critica da situação social no país. Quando se desloca as províncias faz uma apreciação habilitada/critica da situação, por vezes notando lentidão ou ma fé das autoridades locais em serem lentas no trabalho. No regresso da viagem partilha a sua visão com o pai, o que faz dele uma das fontes de informação do PR angolano.

José Filomeno de Sousa dos Santos é filho de JES com Filomena de Sousa “Necas”, filha de pai originário de Cabo Verde e mãe angolana. Ao tempo em que os pais de Zenú mantinham uma relação, o pai era Ministro das Relações Exterior e a mãe, uma funcionaria da cooperação do ministério que vivia na vila Clotilde (Vila Alice). Depois de Zenú nascer, a mesma transferiu-se para o bairro popular (Rua porto Alexandre), em casa da mãe, onde o pequeno viveu os primeiros anos. Mais tarde, já crescidinho, Zenú e a mãe mudaram para os arredores do bairro alvalade (Rua comandante Stoner).
No inicio da década de noventa foi estudar na Suécia acompanhando a mãe que havia sido transferida para aquele país como diplomata (Secretária para os assuntos econômicos da embaixada angolana). Antes, Zenú fez o ensino de base na escola Ngola Kanine em Luanda freqüentou a sétima classe (ano lectivo 89/90), na escola Juventude em Luta em Luanda (sala 1, turma AR). Era visto como “um estudante muito calmo que estudava no meio dos outros sem distinção”, não obstante gozar da “imunidade” de ser levado de Mercedes e com dois militares (guarda-costas).
Poucos anos depois foi estudar na Inglaterra onde se graduou com um BE em engenharia electrónica e eléctrica. Na altura a mãe estava colocada neste país como primeira secretaria/assuntos econômicos da embaixada. Enquanto estudante, Zenú ia a Luanda de férias e nesta altura conheceu uma jovem estudante do PUNIV, Maíra Fernandes de quem passa a pretender. De inicio, a jovem não queria nada. A mesma tinha o antecedente de nunca ter tido um namorado. Mas, logo após o “empurrão” de duas amigas, Maíra aceitou Zenú. No sentido de te-la por perto, Zenú dos Santos arranjou uma bolsa para a namorada pela SONANGOL e em 1997, a mesma seguiu para a Inglaterra. No regresso da missão estudantil, o casal contraiu matrimonio em 2004, em Luanda. (foi sua madrinha de casamento, uma tia, Stela Santiago, hoje vice-cônsul em Houston). Após o casamento passou a viver no Alvalade. Tem uma casa de praia no Benfica (usada para o final de semana e descanso). Recebeu recentemente uma casa no condomínio Cajueiro da Sonangol em talatona. Tem também outra no Nova Vida.
Antes de se formar, Zenú denotava ter um apego especial pela musica. A dada altura passou a freqüentar os estúdios do produtor musical, Beto Max onde aprendeu a tocar piano. Não foi a tempo de ser musico, mas, entretanto apoiou alguns talentos que se prenderam neste mundo dentre as quais Yola Araujo e outros nomes imprecisos.
Como profissional e na qualidade de antigo bolseiro da Sonangol, foi enquadrado na empresa passando a ser director-adjunto da empresa AAA, uma seguradora fundada pela petrolífera angolana. Era pouco visto no seu gabinete (primeiro andar do antigo edifício) e em meados de 2005 largou o emprego passando para o sector privado.
Formatou a sua própria “entourage”. Recuperou velhas amizades, com realce a Jorge amigo de infância que passou a ser o seu "braço direito”. Outro amigo favorito é Índio, filho de Aldemiro Vaz da Conceição com uma suposta irmã de Necas, a mãe de Zenú. Juntou-se também a Mirco Martins, um jovem empresário formado em engenharia electrónica pela Universidade de Salford, em Manchester, e que passou a ser uma espécie de “irmão” seu desde os tempos da Inglaterra.(Viajam juntos, já foram em negócios para Suíça, China e etc). Mirco é enteado de Manuel Vicente. O “ mastermind” dos seus negócios é Jean-Claude de Morais Bastos, um cidadão originário de Cabinda com nacionalidade suíça. É através do mesmo que Zenú criou o seu próprio Banco, o “Quantum” recrutando para si, Ernst Welteke, ex-presidente do Banco Central da Alemanha que é o PCA do seu banco. Foi Jean-Claude Bastos que levou José Filomeno dos Santos “Zenu” para fazer parte da “Afrikanische Innovations Stiftung” (Fundação para inovação de África), com sede na Suíça.
Passou a ter igualmente os chamados “ponta de lanças”. Os mesmos se estendem até as províncias. Em Benguela, localidade que muito se desloca com freqüência (de jacto privado), é apresentado como seu facilitador, Manuel Francisco, figura, que o ajuda(va) na aquisição de terrenos. A construção de uma nova refinaria no Lobito, inicialmente pela empresa chinesa Sinopec, que se retirou, faz de Zenú, a, eminência parda do projecto. (João de Matos também faz parte do projecto). O filho do PR é também conotado a uma empresa de construção em associação com a África Corporation, da China.
A área empresarial que mais preferência tem é o ramo da imobiliária. Justifica, em meios privados, que pretende ajudar a juventude. Tem o seu Gabinete de trabalho num edifício na Maianga. É descrito como uma pessoal “muito humilde e educada”. A dada altura disponibilizada o seu carta de visita, até mesmo no pessoal do protocolo do aeroporto quando viajasse para o exterior. É por via desta facilidade que em Outubro de 2009, um grupo de quatro jovens (Mauro, Massoxe, Divaldo e Paulo) ligou-lhe para vender-lhe um terreno, em cacuaco cuja documentação era falsa. (Tratava-se de uma rede de burla que pretendia vender-lhe um terreno que por sinal era seu).
Zenú tem sido destinatário de projectos de jovens amigos que levam ate a si para o mesmo apoiar. Na sua maioria rejeita aconselhando os seus interlocutores a apresentarem as propostas a uma instituição bancaria. A sua reação é reflexo da postura de “muito direito”, conforme discrição ao seu redor. O mesmo passou a ser “muito mais” discreto. Recentemente junto com os “seus”, rejeitou conotações que o associavam a altos funcionários do Instituto de Estradas de Angola. Tem pedido aos seus próximos que não o citem com terceiros.
É muito cuidadoso na gestão da sua imagem; porta-se como um “cavalheiro”; quando vai a padaria comprar pão saúda as pessoas mesmo que não as conhece; é capaz de dar prioridade as senhoras. As pessoas que com ele se cruzam sobretudo os jovens acabam por ter a impressão de “figura simples” e “bastante educada” que nem parece ser “filho de quem é”.
Das suas participações empresarias constam, que o mesmo é sócio de uma Campânia aérea, Air26, de uma rede de transportes Tura. Tem também aspiração aos negócios dos diamantes. Quando começou a se firmar nos negócios privados deslocou-se diversas vezes ao Ministério da Geologia e Minas, ao qual recebeu da direcção Nacional da geologia, autorização de concessão para exploração de minerais. É muito próximo ao PCA, da Endiama, Carlos Sumbula tido como “muito competente”.
José Filomeno dos Santos presta também trabalhos de assessoria numa área técnica da Presidência da Republica. É tratado pelas secretarias como “O Engenheiro”. O novo aeroporto internacional, a ser construído na área de bom - Jesus esta agora sua alçada. Antes estava sob controle do general Manuel Vieira Dias “Kopelipa”.
A imprensa em Angola tem o apresentado como potencial sucessor do pai. Na verdade não lhe é notado objecção quanto ao assunto, (em meios familiares faz-se defesa a Fernando Dias dos Santos “Nandó”, sob alegação de que tem mais “punho” para por ordem no país). Há cerca de três anos, num jantar com amigos foi lhe indagado se aceitaria, tais propostas “presidencialista”. O mesmo respondeu que “era patriota e que estará sempre ao serviço do país”.
Na altura foi visto a franquear a sede do MPLA, ao que deu azo de que estaria a se estrear na política. Em Agosto/Setembro de 2008, esteve num comício no poder. Na véspera da preparação do ultimo do congresso do MPLA, a media angolana noticiou constantemente que o mesmo iria ser elevado ao Comitê Central do partido. No sentido de esvaziar especulações, Zenú absteve-se em participar no conclave, sobretudo como convidado como fez Isabel dos Santos e Sindika Dukolo. (Tchizé não participou igualmente devido ao seu estado de gravidez).
As ventilações que o associam como potencial candidato já começa a fazer “espécie” mesmo no circulo familiar de JES, devido ao tratamento/atenção “presidencial” que o PR ultimamente presta ao filho. A 25 de Fevereiro, realizou-se no salão da cidade alta, um casamento de uma sobrinha de JES, Jurema Santos e Zenú fez parte da mesa especial do pai, ladeado dos irmãos, Luis e Avelino dos Santos. Era o mais novo da mesa. Zenú era o único que tinha tratamento “presidencial”. (Pai e filho não consumiam a comida ali a disposição; o mantimento, inclusive o gelo para o refresco vinha do palácio presidencial, a 2 minutos de distancia do local da festa). Na hora de JES se retirar indo para os seus aposentos, Zenú retirou-se em simultâneo como se fosse um “Vice-PR”. Os guardas fizeram cobertura a ambos.
Constatações que alimentam as teses presidencialistas em torno do mesmo:
- São lhe atribuído a freqüência de curso de ciências políticas, a distancia, acrescida a uma formação de inteligência que terá feito em Israel.
- Passou a fazer parte do núcleo restrito de conselheiros informais de JES. Em meios atentos, diz-se que passou a ocupar a “vaga” deixada por Desiderio Costa. Nas deslocações ao exterior, Desiderio Costa era uma espécie de tesoureiro, papel agora desempenhado por Zenú. Em Fevereiro, de 2009, JES foi à Alemanha, o mesmo não fez parte da viagem, mas um emissário seu, Ernst Welteke, esteve presente num fórum de negócios realizado em Berlim.
- A sua inclusão nos negócios imobiliários é sob alegação de que pretende ajudar a juventude; cenário entendido como estando em “campanha” a longo prazo.
- Foi-lhe dispensado um “espaço” na presidência, onde funciona como assessor de uma área técnica relacionada ao seu curso. Foram-lhe atribuídos dois dossiês, o do novo aeroporto e outro de referencia imprecisa. Já esta familiarizado com o circulo presidencial. Em finais do mês passado, necessitava de um expert para área da arquitectura e contactou um técnico da presidência para que lhe recomendassem um profissional no mercado.
- O seu “adversário” ao cadeirão presidencial, Fernando da Piedade dias dos Santos que mais perto esta na linha de sucessão é referenciado como estando sem poderes. Não tem orçamento próprio. Se desejar erguer uma escola ou hospital, na sua qualidade de Vice-PR, terá de solicitar por escrito a JES. A área social em que se diz responder faz contrapeso com Carlos Feijó e com uma Secretária da presidência para a área social, Rosa Pacavira, que faz intervenções de caracter nacional.
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Outros filhos do Presidente são Zedu, Joess Gourgel, Danilo Eduane, Joseane, Tchizé e Isabel.

5.5.10

A esperança de um ex-primeiro-ministro guineense

Continuo convicto de que uma outra Guiné-Bissau é possível, com massa crítica, com cidadania democrática, com ética de base cristã (sem fundamentalismo religioso, mas reconhecendo os sinais da História, que nos demonstram que os direitos humanos e a democracia são valores greco-judaico-cristãos ou, se quiser, ocidentais), com um Estado transversal a todos os seus grupos humanos e sociais e estratega do desenvolvimento (considerada esta noção como uma conjugação feliz do crescimento económico e da promoção humana).

Querendo Deus, chegará o dia em que tudo isso - essa convicção e sonho - será realidade! Nem exige muitos recursos nem muito tempo... Apenas sentido de Estado (transversalidade, legalidade, democracia, direitos humanos), honestidade, estratégia (conhecimento, organização, planeamento) e trabalho.

Um forte abraço deste seu amigo,

Francisco José Fadul

Guiné-Bissau: Estado ainda por achar

O desgaste psicológico e moral dos quadros guineenses é um drama que se arrasta desde a década de 1960 e que explica a instabilidade crónica do país.

Não interessa muito tentar compreender os acontecimentos deste mês de Abril sem ter em conta tudo o que aconteceu desde que foi criado o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e que ele decidiu enveredar pela luta armada.
O partido nasceu torto, frágil, e já no fim de 1966 o seu líder, Amílcar Cabral, tentava sem grande resultado ultrapassar o esmorecimento moral das suas hostes. Só os ideais do Maio de 68 e a mobilização geral contra a Guerra do Vietname é que permitiram a muitos países imaginar em 1973/74 que o PAIGC era um grande partido e que a Guiné-Bissau iria nascer em força, em segurança, com pés para andar.

Forças Armadas

Cabral estudou a reorganização das Forças Armadas de um país que ainda nem sequer existia, tal como nos últimos anos o tem feito um general espanhol ao serviço da União Europeia. Mas tanto há 43 anos como hoje as forças combatentes guineenses continuam a não se deixar reorganizar.
O mundo exterior não tem, nunca teve, capacidade para entender a realidade cultural dos povos da Guiné-Bissau, que não é um país, nem um Estado, nem uma nação. Apenas uma manta de retalhos a partir dos despojos de dezenas de povos.
Em 1967, já se gastavam por ali munições às cegas, já se davam por ali tiros inúteis, matando este e aquele e mais algum. A vertente guineense do partido dualista criado por Amílcar Cabral e Aristides Pereira nunca aceitou a cooperação séria com os naturais de Cabo Verde e a organização conjunta de duas nações que viessem a funcionar em paralelo.
Muitos dos combatentes guineenses do PAIGC, fosse em 1973 ou noutras alturas, nunca conseguiram levar à prática o projecto idealizado pelo engenheiro agrónomo Amílcar Cabral, pelo que a proclamação unilateral da independência da Guiné-Bissau, em 24 de Setembro daquele ano, foi um fogo-fátuo.

Velhas mentiras

É tempo de esquecer velhas mentiras. O esquerdismo pós-25 de Abril enalteceu a maravilha de um partido novo que iria dirigir de forma magnífica dois territórios irmãos; mas a verdade é que Cabo Verde tinha unidade cultural e a Guiné-Bissau não a tinha. Havia balantas, fulas, mandingas, manjacos e muitos outros povos, não havia guineenses.
Amílcar foi assassinado por alguns dos seus camaradas de armas, independentemente de estes se encontrarem em conluio com a polícia política do regime colonial português. O seu irmão Luís, depois de derrubado de presidente em 14 de Novembro de 1980, acabou por preferir vir passar o resto dos seus dias em Portugal, onde há alguns meses morreu. Já não acreditava na forma como ia sendo gerido o país que chegara a chefiar.
Nino Vieira, o segundo presidente da Guiné-Bissau, veio a mandar eliminar o vice-presidente Paulo Correia, o procurador-geral Viriato Pã e uma série de outros subordinados. Derrubado em 1999 por uma Junta Militar que contra ele se erguera no ano anterior, arranjou modos de reassumir funções por via eleitoral, para, no fim, acabar por ser barbaramente assassinado.
Dois dos componentes daquela Junta Militar, Ansumane Mané e Veríssimo Correia Seabra, também já foram assassinados, tal como outros militares e políticos, nesta última década, durante a qual tem prosseguido o velho cortejo de barbaridades.

A prática das traições

Tem havido muitas traições e pouca consciência cívica e política entre a maioria dos quadros guineenses do PAIGC, tal como aliás de entre os políticos das forças que nos últimos 16 anos procuraram apresentar-se como uma alternativa.
O Partido da Renovação Social (PRS), de Kumba Ialá, que já chegou a ser presidente e foi um desastre, também não se apresenta muito melhor do que o antigo partido único, tendo até uma base essencialmente tribal, com base na etnia balanta, que congrega um terço da população, mas tem vindo a contar com mais de metade dos oficiais das Forças Armadas.
É pois na sequência lógica do tudo o que aqui deixo enunciado que novos golpes pairam no horizonte, com muito sangue a correr, de militares e civis, uns e outros seduzidos nos últimos anos pelo canto de sereia dos narcotraficantes sul-americanos, que apareceram em força na África Ocidental.
A impunidade tem sido geral, em relação a muitos dos assassínios cometidos num país que tem muitas riquezas naturais mas que ainda não começou a aproveitá-las. Há ouro, petróleo, bauxite e diamantes, só que o seu aproveitamento devido só poderia ser feito por um Estado que realmente existisse e onde a maioria da população dominasse a língua nacional, o português.
A triste realidade é que nem 15 por cento sequer dos guineenses falam português; que a maior parte se procura expressar em crioulo e que uns quantos nem o crioulo falam, ficando amarrados às línguas ancestrais, como o fula, o mandinga, o manjaco e uma série de outras.
As Forças Armadas deste país de profunda instabilidade são constituídas por cerca de 4500 homens, dos quais uma parte substancial oficiais e sargentos, dando-se o facto inédito de os simples soldados se encontrarem praticamente em minoria.

Esperança provada

Gostaria muito de deixar aqui uma nota de esperança e de dizer que o futuro irá ser decerto melhor para os habitantes de uma Guiné-Bissau que conheço desde 1963; e mais claramente desde 1968, quando pela primeira vez subi o Canal Grande do Rio Geba, a caminho de Bissau. Mas a verdade é que sou céptico e que me custa a acreditar que as profundas reformas necessárias se possam concretizar durante os anos mais próximos.



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J.Heitor, na revista Além-Mar do mês de Maio

2.5.10

Predadores da Liberdade de Imprensa

Os líderes da China, da Coreia do Norte, do Zimbabwe e de Cuba foram incluídos pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) numa lista dos “Predadores da Liberdade de Imprensa” referente a 2010, por censurarem, prenderem ou torturarem jornalistas.

O Presidente Hu Jintao, secretário-geral do Partido Comunista Chinês, garante a implementação do seu programa de uma “sociedade harmoniosa” fazendo com que a polícia e o departamento de propaganda impeçam o surgimento de qualquer imprensa livre, disse aquele grupo defensor da liberdade dos jornalistas.

Quanto ao “paranóico Querido Líder” norte-coreano, Kim Jong-il, proibiu os meios de comunicação social de debaterem a fome que matou milhões de norte-coreanos durante a década de 1990. E em cada dia que passa as suas actividades iniciam os telejornais e ocupam as primeiras páginas dos jornais, bastando escrever ou pronunciar mal o seu nome para se ir parar a um campo de reeducação.

Do Presidente zimbabweano Robert Mugabe afirma-se que “arrasta os pés, sabotando o Governo de Unidade Nacional e garantindo que a imprensa independente não se expresse livremente”, enquanto os seus adjuntos mantêm um rígido controlo da comunicação social estatizada.

No que se refere ao Presidente do Conselho de Estado de Cuba, Raúl Castro, “tem-se comportado pouco melhor do que o irmão (Fidel) no que diz respeito aos direitos humanos, apesar de alguns sinais cautelosos de uma possível abertura”. E o chamado período de transição testemunhou a cotínua perseguição de jornalistas independentes, com brutalidade policial e rusgas pela Segurança do Estado.

Outro dos “predadores” denunciados pelos RSF é o Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, agora muito interessado em ser membro pleno da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), na qual o seu país já tem o estatuto de observador. Dele se diz que mantém o controlo absoluto do seu pequeno estado produtor de petróleo, limitando-se a imprensa privada a alguns pequenos jornais. No país não há sindicato de jornalistas nem qualquer organização que defenda a liberdade de imprensa.

No rol das “poderosas pessoas que estão por trás das violações da liberdade de imprensa” surgem de igual modo o chefe da junta militar birmanesa, general Than Shwe, o chefe dos taliban, Mullah Mohammad Omar, o Presidente da Bielorússia, Alexandre Lukashenko, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, o rei Abdallah da Arábia Saudita e o Líder Supremo da República Islâmica do Irão, Ali Khamenei, tal como o Presidente desse mesmo país, Mahmoud Ahmadinejad.

Para além do coronel líbio Muammar Kadhafi e do Presidente sírio, Bashar al-Assad, a enorme lista dos “predadores da liberdade de imprensa” refere ainda os cartéis mexicanos de narcotraficantes, o grupo separatista basco ETA e as redes italianas do crime organizado, como a Cosa Nostra, a Camorra, a ‘Ndrangheta e a Sacra Corona Unida.

No que diz respeito às terras do Médio Oriente, os retratos elaborados pelos RSF incluem tanto as Forças de Defesa de Israel como a Força Executiva do Hamas e as forças de segurança da Autoridade Palestiniana.

1.5.10

Golpista Indjai esteve na Líbia

Sirtes, Líbia (PANA) - O líder líbio, Muamar Kadafi, recebeu domingo à tarde, em Sirtes, centro da Líbia, o actual chefe do Estado-Maior-General de facto das Forças Armadas bissau-guineenses, general António Indjai, chegado sábado à Líbia à frente duma delegação do seu país.

Nesta audiência, o chefe militar bissau-guineense transmitiu, segundo uma fonte oficial líbia, uma mensagem do Presidente Malam Bacai Sanhá a Kadafi e esclareceu que a situação "está sob controlo" na Guiné-Bissau depois da insurreição militar de 1 de Abril passado.

Nesta sublevação por si liderada na capital guineense, os militares detiveram o primeiro-ministro Carlos Gomes Junior e o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Zomora Induta, por razões não precisadas.

Algumas horas depois, os soldados libertaram o primeiro-ministro, mas detêm até agora Zamora Induta, depois de o general Indjai se ter autoproclamado chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.