Por volta de 1700, segundo o Professor Joseph Ki-Zerbo, foi fundado o estado dioula de Kong, nada mais nada menos do que por Sékou Ouattara, antepassado paterno do actual Presidente eleito da Costa do Marfim, Alassane Dramene Ouattara. Outras fontes são mesmo mais precisas, colocando a fundação de tal entidade política no ano de 1710.
No século XVIII, quando Portugal estava cheio do ouro proveniente do Brasil, a cidade-Estado de Kong, que baseou a sua prosperidade nas trocas entre a savana e a floresta, dominou a região produtora de ouro e de noz de cola do Norte da Costa do Marfim.
As cidades mercantis criadas por comerciantes de etnia dioula tinham-se desenvolvido ao mesmo tempo que o islão se desenvolvia. E foi assim que o clã dos Ouattara derrubou o poder tradicional animista e alargou os seus territórios.
Quando Sékou Ouattara, tetravô de Alassane, morreu em 1745, aos 80 anos, segundo se pode ler no Mémorial de la Côte dIvoire, deixou aos seus sucessores aquilo que é hoje o Nordeste da Costa do Marfim, atravessado pelo rio Komoé.
Só quem ainda porventura pense como Hegel, que em 1830 dizia de forma tão ingénua que "a África não é uma parte histórica do mundo", é que não saberá dos reinos fulas, mandingas e tantos outros que ao longo dos séculos se desenvolveram por alturas de Tombouctu, Ouagadougu e Bondouku.
Para este escriba, porém, que aos 15 anos começou a ter aulas de introdução às questões africanas, por pessoas tais como Luís Filipe de Oliveira e Castro, não é assim tão difícil traçar uma linha de continuidade entre o passado e o presente da família Ouattara.
Foram precisamente três séculos, 300 anos, o tempo decorrido entre a chegada do tetravô ao poder nas savanas de Kong e a proclamação de Alassane Dramane Ouattara como Presidente eleito da Costa do Marfim, com corte a funcionar no Hotel du Golf, em Abidjan. Jorge Heitor
6.1.11
A tomada do poder por Alassane Ouattara
Numa entrevista hoje transmitida pela Europe 1 e que me fez lembrar o grande filme feito em 1966 por Roberto Rosselini, Alassane Dramane Ouattara garantiu que, por todo este mês de Janeiro, vai ter "a totalidade do poder" na Costa do Marfim.
De modo a garanti-lo, um Conselho de Segurança que começa o ano sob a presidência da Bósnia, que sabe muito bem o que são situações de conflito, deverá dentro de dias reforçar com pelo menos um milhar de homens os efectivos da Operação das Nações Unidas na Costa do Marfim (ONUCI).
O Conselho actua na sequência de um pedido formulado pelo francês Alain Le Roy, encarregado das operações da ONU para a pacificação de certos territórios mais agitados. E a ONUCI poderá assim vir a ficar com pelo menos 10.500 militares e polícias, 500 dos quais deslocados da vizinha Libéria, que já teve a sua boa experiência de violência e até tem um ex-Presidente a ser julgado no Tribunal Especial das Nações Unidas para a Serra Leoa, que neste caso específico não se reúne em Freetown mas sim em Haia.
Com uma União Europeia a reboque da vontade da França herdeira do general De Gaulle e uma ONU onde os Estados Unidos têm grande peso, não é muito difícil de acreditar que Alassane Dramane Ouattara consiga de facto concretizar dentro de semanas aquele que é de há muito o seu desejo de quadro superior das instituições de Brenton Woods: "Vamos ter a totalidade do poder".
Tal como Rosselini nos retratou de forma tão magistral A Tomada do Poder por Luís XIV, era bom que houvesse agora alguém, cineasta ou romancista, que conseguisse gravar para a posteridade todos os episódios da tomada do poder por este homem cujos laços ancestrais radicam na aristocracia da Haute Côte d'Ivoire. Ou seja, naquela zona de confluência entre os países que hoje conhecemos como Burkina Faso e Costa do Marfim. Jorge Heitor
De modo a garanti-lo, um Conselho de Segurança que começa o ano sob a presidência da Bósnia, que sabe muito bem o que são situações de conflito, deverá dentro de dias reforçar com pelo menos um milhar de homens os efectivos da Operação das Nações Unidas na Costa do Marfim (ONUCI).
O Conselho actua na sequência de um pedido formulado pelo francês Alain Le Roy, encarregado das operações da ONU para a pacificação de certos territórios mais agitados. E a ONUCI poderá assim vir a ficar com pelo menos 10.500 militares e polícias, 500 dos quais deslocados da vizinha Libéria, que já teve a sua boa experiência de violência e até tem um ex-Presidente a ser julgado no Tribunal Especial das Nações Unidas para a Serra Leoa, que neste caso específico não se reúne em Freetown mas sim em Haia.
Com uma União Europeia a reboque da vontade da França herdeira do general De Gaulle e uma ONU onde os Estados Unidos têm grande peso, não é muito difícil de acreditar que Alassane Dramane Ouattara consiga de facto concretizar dentro de semanas aquele que é de há muito o seu desejo de quadro superior das instituições de Brenton Woods: "Vamos ter a totalidade do poder".
Tal como Rosselini nos retratou de forma tão magistral A Tomada do Poder por Luís XIV, era bom que houvesse agora alguém, cineasta ou romancista, que conseguisse gravar para a posteridade todos os episódios da tomada do poder por este homem cujos laços ancestrais radicam na aristocracia da Haute Côte d'Ivoire. Ou seja, naquela zona de confluência entre os países que hoje conhecemos como Burkina Faso e Costa do Marfim. Jorge Heitor
5.1.11
O pandemónio na Costa do Marfim
Um antigo conselheiro da embaixada da França na Costa do Marfim, Dominique Pin, agora quadro da empresa Areva, promotora de reactores nucleares, escreveu no diário Libération, sem dar provas, que em Setembro de 2002 o Presidente Laurent Gbagbo pretendeu "liquidar" o político liberal Alassane Ouattara.
Com a convicção de quem esteve colocado no terreno entre 2000 e 2002, Pin entrou assim na vasta legião dos que pretendem trucidar politicamente o socialista Gbagbo, colocando em seu lugar alguém que pareça servir melhor os interesses de Nicolas Sarkozy e de empresas como a Areva ou a Progosa, dedicada à chamada logística internacional.
No meio de todo o pandemónio em que a Costa do Marfim transitou de 2010 para 2011, o antigo diplomata veio contar que os colaboradores de Gbagbo pretenderam assassinar Ouattara por o considerarem o financiador das Forças Novas, de Guillaume Soro, que haviam lançado uma ofensiva contra Abidjan.
Num episódio rocambolesco, Ouattara e a mulher, uma francesa da Argélia, altamente relacionada internacionalmente, teriam escalado os muros da sua residência e ido refugiar-se em casa do embaixador da Alemanha. Tal como em 1984 tínhamos visto o destituído primeiro-ministro Vítor Saúde Maria fazer em Bissau, saltando pelos quintais para se refugiar na residência do embaixador de Portugal, na Rua de Lisboa.
A acreditar na versão de Dominique Pin, o círculo que rodeia Gbagbo teria tanta propensão para eliminar adversários quanto a demonstrada anteriormente por João Bernardo "Nino" Vieira.
Pin, hoje em dia figura importante da Areva e da Progosa, para questões de logística e de fornecimento de combustíveis, entre outras, alega que o economista liberal Alassane Ouattara esteve então dois meses e meio refugiado em sua casa.
Velhos laços, portanto, entre Ouattara e a França degaullista; entre Ouattara e grandes interesses empresariais da Europa e dos Estados Unidos.
Enquanto isto, numa entrevista ao canal France 24, o protegido da Casa Branca e do Eliseu afirmou não haver necessidade de uma nova guerra civil. Bastaria que a CEDEAO recorresse à força apenas para obrigar Gbagbo a sair do Palácio Presidencial, não para combater um grande número de marfinenses que apoiam o historiador amigo de Roland Dumas e de Jack Lang.
Triste folhetim este, o que se arrasta há pelo menos cinco semanas e promete continuar, naquelas terras onde Félix Houphouet-Boigny nasceu em 1905, para vir a ser em 1960 o primeiro Presidente de uma nova República. Jorge Heitor
Com a convicção de quem esteve colocado no terreno entre 2000 e 2002, Pin entrou assim na vasta legião dos que pretendem trucidar politicamente o socialista Gbagbo, colocando em seu lugar alguém que pareça servir melhor os interesses de Nicolas Sarkozy e de empresas como a Areva ou a Progosa, dedicada à chamada logística internacional.
No meio de todo o pandemónio em que a Costa do Marfim transitou de 2010 para 2011, o antigo diplomata veio contar que os colaboradores de Gbagbo pretenderam assassinar Ouattara por o considerarem o financiador das Forças Novas, de Guillaume Soro, que haviam lançado uma ofensiva contra Abidjan.
Num episódio rocambolesco, Ouattara e a mulher, uma francesa da Argélia, altamente relacionada internacionalmente, teriam escalado os muros da sua residência e ido refugiar-se em casa do embaixador da Alemanha. Tal como em 1984 tínhamos visto o destituído primeiro-ministro Vítor Saúde Maria fazer em Bissau, saltando pelos quintais para se refugiar na residência do embaixador de Portugal, na Rua de Lisboa.
A acreditar na versão de Dominique Pin, o círculo que rodeia Gbagbo teria tanta propensão para eliminar adversários quanto a demonstrada anteriormente por João Bernardo "Nino" Vieira.
Pin, hoje em dia figura importante da Areva e da Progosa, para questões de logística e de fornecimento de combustíveis, entre outras, alega que o economista liberal Alassane Ouattara esteve então dois meses e meio refugiado em sua casa.
Velhos laços, portanto, entre Ouattara e a França degaullista; entre Ouattara e grandes interesses empresariais da Europa e dos Estados Unidos.
Enquanto isto, numa entrevista ao canal France 24, o protegido da Casa Branca e do Eliseu afirmou não haver necessidade de uma nova guerra civil. Bastaria que a CEDEAO recorresse à força apenas para obrigar Gbagbo a sair do Palácio Presidencial, não para combater um grande número de marfinenses que apoiam o historiador amigo de Roland Dumas e de Jack Lang.
Triste folhetim este, o que se arrasta há pelo menos cinco semanas e promete continuar, naquelas terras onde Félix Houphouet-Boigny nasceu em 1905, para vir a ser em 1960 o primeiro Presidente de uma nova República. Jorge Heitor
4.1.11
O chocolate amargo da Costa do Marfim
Continuamos a beber gota a gota este chocolate amargo que nos chega da Costa do Marfim, onde o socialista Laurent Gbagbo e o liberal Alassane Ouattara estariam agora na disposição de se encontrar, segundo disse esta manhã em Abuja o primeiro-ministro queniano Raila Odinga.
Antes de entrar para uma audiência com o Presidente da Nigéria e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Goodluck Jonathan, criatura que goza das simpatias da Administração Obama, Odinga contou que Gbagbo aceitou ontem a possibilidade de um encontro com o economista liberal Ouattara, que reivindica o direito de lhe suceder à frente dos destinos do maior produtor mundial de cacau.
Horas depois, porém, o conselheiro diplomático de Ouattara desmentiu a hipótese de uma reunião deste com Gbagbo.
Odinga, Pedro Pires e os presidentes da Serra Leoa e do Benim estiveram ontem uma vez mais com aquelas duas figuras cimeiras da cena marfinense.
Gbagbo é o preferido de Jacques Vergès, Roland Dumas, François Loncle, Guy Labert, Henri Emmanueli, Jack Lang e José Eduardo dos Santos. Ouattara o protegido de Nicolas Sarkozy e, por arrastamento, da União Europeia e dos Estados Unidos.
Gbagbo é o homem da Internacional Socialista, que se vai distanciando progressivamente dele. Ouattara, criatura do FMI, mantém-se inflexível, não aceitando compromissos.
Dada a gestão pouco correcta que Gbagbo tem feito, em 10 anos de mandato, dos recursos da Costa do Marfim (cacau, café robusta, petróleo, gás natural...), as instituições de Bretton Woods procuram agora ter um dos seus a gerir um território que é muito importante para tudo aquilo que se passa desde o Senegal até ao Golfo da Guiné.
Tendo criado há mais de um século e meio a Libéria, e aí explorado a borracha, para a Firestone, os norte-americanos querem agora avançar para a vizinha Costa do Marfim, dobrando o Cabo Palma e chegando a Abidjan.
Depois da senhora que conseguiram colocar na presidência da Libéria, os Estados Unidos querem juntar-lhe Ouattara na Costa do Marfim, a fim de entre Monróvia e Yamassoukro se constituir um poderoso eixo de defesa dos interesses ocidentais.
Com fortes peões em Monróvia, Buchanan, Bouaké, Yamassoukro e Abidjan, a América do Norte poderá instalar por esses lados o quartel-general do seu comando africano, o Africom, entretanto ainda a funcionar na germânica Estugarda.
Uma Costa do Marfim amiga da América e da União Europeia é fundamental para controlar os tráficos e os radicalismos que passam pelos territórios da CEDEAO e ameaçam a sua estabilidade, como uma comunidade económica viável.
Esperemos que a comunicação social portuguesa saiba explicar devidamente aos que a lêem e a ouvem tudo o que na verdade está em causa neste jogo marfinense, que dominou para muitos as últimas cinco semanas. Jorge Heitor
Antes de entrar para uma audiência com o Presidente da Nigéria e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Goodluck Jonathan, criatura que goza das simpatias da Administração Obama, Odinga contou que Gbagbo aceitou ontem a possibilidade de um encontro com o economista liberal Ouattara, que reivindica o direito de lhe suceder à frente dos destinos do maior produtor mundial de cacau.
Horas depois, porém, o conselheiro diplomático de Ouattara desmentiu a hipótese de uma reunião deste com Gbagbo.
Odinga, Pedro Pires e os presidentes da Serra Leoa e do Benim estiveram ontem uma vez mais com aquelas duas figuras cimeiras da cena marfinense.
Gbagbo é o preferido de Jacques Vergès, Roland Dumas, François Loncle, Guy Labert, Henri Emmanueli, Jack Lang e José Eduardo dos Santos. Ouattara o protegido de Nicolas Sarkozy e, por arrastamento, da União Europeia e dos Estados Unidos.
Gbagbo é o homem da Internacional Socialista, que se vai distanciando progressivamente dele. Ouattara, criatura do FMI, mantém-se inflexível, não aceitando compromissos.
Dada a gestão pouco correcta que Gbagbo tem feito, em 10 anos de mandato, dos recursos da Costa do Marfim (cacau, café robusta, petróleo, gás natural...), as instituições de Bretton Woods procuram agora ter um dos seus a gerir um território que é muito importante para tudo aquilo que se passa desde o Senegal até ao Golfo da Guiné.
Tendo criado há mais de um século e meio a Libéria, e aí explorado a borracha, para a Firestone, os norte-americanos querem agora avançar para a vizinha Costa do Marfim, dobrando o Cabo Palma e chegando a Abidjan.
Depois da senhora que conseguiram colocar na presidência da Libéria, os Estados Unidos querem juntar-lhe Ouattara na Costa do Marfim, a fim de entre Monróvia e Yamassoukro se constituir um poderoso eixo de defesa dos interesses ocidentais.
Com fortes peões em Monróvia, Buchanan, Bouaké, Yamassoukro e Abidjan, a América do Norte poderá instalar por esses lados o quartel-general do seu comando africano, o Africom, entretanto ainda a funcionar na germânica Estugarda.
Uma Costa do Marfim amiga da América e da União Europeia é fundamental para controlar os tráficos e os radicalismos que passam pelos territórios da CEDEAO e ameaçam a sua estabilidade, como uma comunidade económica viável.
Esperemos que a comunicação social portuguesa saiba explicar devidamente aos que a lêem e a ouvem tudo o que na verdade está em causa neste jogo marfinense, que dominou para muitos as últimas cinco semanas. Jorge Heitor
3.1.11
Que importa que Ouattara seja muçulmano?
Isto não é um conflito sobre religiões; e por isso não têm a mínima razão aqueles distraídos que andam a dizer que "o Ocidente vai entregar a Costa do Marfim aos muçulmanos".
A Obama e a Sarkozy não importa minimamente que Alassane Ouattara seja um muçulmano, aliás moderado. O que lhes interessa é que se trata de alguém muito ligado às instituições de Bretton Woods, pronto para aplicar naquele recanto da África as receitas do FMI e do Banco Mundial.
Com Ouattara, e não com o socialista e xenófobo Laurent Gbabo, os Estados Unidos e a União Europeia querem tirar o máximo proveito do cacau, do robusta, da borracha, do chá, do petróleo e do gás natural da Côte d'Ivoire.
A eles pouco importa que o novo Presidente possa ir à mesquita às sextas-feiras, desde que lhes ajude a extrair tudo o que for possível do solo e do subsolo de um território que cobiçam.
Quem é que disse que o colonialismo acabou na segunda metade do século XX? O importante é que continue a correr o marfim (sob todas as suas formas). J.H.
A Obama e a Sarkozy não importa minimamente que Alassane Ouattara seja um muçulmano, aliás moderado. O que lhes interessa é que se trata de alguém muito ligado às instituições de Bretton Woods, pronto para aplicar naquele recanto da África as receitas do FMI e do Banco Mundial.
Com Ouattara, e não com o socialista e xenófobo Laurent Gbabo, os Estados Unidos e a União Europeia querem tirar o máximo proveito do cacau, do robusta, da borracha, do chá, do petróleo e do gás natural da Côte d'Ivoire.
A eles pouco importa que o novo Presidente possa ir à mesquita às sextas-feiras, desde que lhes ajude a extrair tudo o que for possível do solo e do subsolo de um território que cobiçam.
Quem é que disse que o colonialismo acabou na segunda metade do século XX? O importante é que continue a correr o marfim (sob todas as suas formas). J.H.
1.1.11
Nos Montes de Nimba, 21 anos depois
No Natal de 1989, Charles Taylor partiu dos Montes de Nimba, na confluência da Costa do Marfim com a Libéria e a República da Guiné, para tomar o poder em Monróvia, escorraçando de lá Samuel Doe.
Agora, nesses mesmos montes, que chegam a uma altitude de 1860 metros, grupos de mercenários liberianos preparam-se para combater por qualquer um dos campos em disputa na Costa do Marfim: o de Laurent Gbagbo ou o de Alassane Dramane Ouattara.
Nimba é sinónimo de um dos períodos mais conturbados da História recente da África Ocidental, com o desencadear das guerras na Libéria e na Serra Leoa, pelo controlo dos recursos do subsolo.
Agora, com Taylor ainda a ser julgado na Holanda, com grande lentidão, compatriotas seus preparam-se para espalhar a devastação e a morte no território marfinense, que há um quarto de século era tido como uma zona calma, produtora de cacau e café.
O ano começa com sinais de guerra na Costa do Marfim, para logo a seguir a grande mancha de sangue também poder chegar ao Sudão e à Nigéria, respectivamente o mais extenso e o mais populoso dos países da África.
Durante os próximos meses o Mundo deverá estar muito atento a tudo o que acontecer desde a bacia do rio Senegal às margens do Nilo Branco e do Nilo Azul, que se juntam em Cartum e daí avançam unificados para a Núbia.
Este ano de 2011 poderá ser de muito sofrimento para os povos da África Negra, a sul do Sara, povos tantas vezes esquecidos pelos europeus, que nunca teriam chegado muito bem a entendfê-los. Jorge Heitor
Agora, nesses mesmos montes, que chegam a uma altitude de 1860 metros, grupos de mercenários liberianos preparam-se para combater por qualquer um dos campos em disputa na Costa do Marfim: o de Laurent Gbagbo ou o de Alassane Dramane Ouattara.
Nimba é sinónimo de um dos períodos mais conturbados da História recente da África Ocidental, com o desencadear das guerras na Libéria e na Serra Leoa, pelo controlo dos recursos do subsolo.
Agora, com Taylor ainda a ser julgado na Holanda, com grande lentidão, compatriotas seus preparam-se para espalhar a devastação e a morte no território marfinense, que há um quarto de século era tido como uma zona calma, produtora de cacau e café.
O ano começa com sinais de guerra na Costa do Marfim, para logo a seguir a grande mancha de sangue também poder chegar ao Sudão e à Nigéria, respectivamente o mais extenso e o mais populoso dos países da África.
Durante os próximos meses o Mundo deverá estar muito atento a tudo o que acontecer desde a bacia do rio Senegal às margens do Nilo Branco e do Nilo Azul, que se juntam em Cartum e daí avançam unificados para a Núbia.
Este ano de 2011 poderá ser de muito sofrimento para os povos da África Negra, a sul do Sara, povos tantas vezes esquecidos pelos europeus, que nunca teriam chegado muito bem a entendfê-los. Jorge Heitor
A colocação dos peões na África Ocidental
Depois de 2005 terem visto Ellen Johnson-Smith, economista do Banco Mundial e do Citibank, chegar à presidência da Libéria, os Estados Unidos testemunham agora a eleição de outro economista de formação norte-americana, Alassane Dramane Ouattara, para a chefia da vizinha Costa do Marfim.
Bauxite, cobalto, diamantes, ferro, manganésio, níquel, tantalite e oiro são atributos da dita Costa do Marfim, pelo que a alguns países estrangeiros interessa tem no controlo de tais riquezas pessoas de formação economicistas, ligadas ao Banco Mundial e ao FMI.
Isto ajuda a explicar o empenho com que a Administração Obama e o Presidente Nicolas Sarkozy garantam a pés juntos que Ouattara é o Presidente devidamente eleito da Costa do Marfim, devendo substituir o historiador Laurent Gbagbo, criatura da Internacional Socialista.
Se bem que num primeiro tempo, há 15 dias, Gbagbo parecesse isolado, perante as vozes sonantes da Casa Branca, do secretário-geral das Nações Unidas, do Eliseu e da Comissão Europeia, depois ele conseguiu recompor-se e as entrevistas têm-se sucedido, desde os jornais franceses à Euronews.
Nenhum dos dois homens será uma criatura santa e agora aquilo em que temos de pensar é nos metais indispensáveis ao fabrico de aparelhos de alta tecnologia, as chamadas "terras raras", produção mundial dominada pela China e a que os Estados Unidos e o Canadá querem ter acesso.
O que faz correr Washington, Paris, Otava e Bruxelas não será talvez o facto de Ouattara ter tido aparentemente mais oito por cento de votos do que Gbagbo, mas sim o grande jogo da geopolítica.
Gostaria que os nossos jornais e televisões deixassem de continuar a insistir na mesma técnica simplista de que um Presidente perdeu e não quer sair, para irem mais longe, mais a fundo, explicando tudo o que está por trás daquilo que se joga na Libéria e na Costa do Marfim: controlo de metais, de redes terroristas e de tráficos.
Laser, telemóveis, grandes écrans de televisão e iPhones necessitam de coisas que há na África Ocidental; e por isso poderá correr muito sangue na Guiné-Bissau, na Serra Leoa, na Libéria e na Costa do Marfim.
Os painéis solares, as urbinas eólicas, os mísseis de cruzeiro e os radares necessitam das "terras raras" africanas, pelo que há que controlar muito bem todo o espaço que se estende das Bijagós ao Delta do Níger.
O ideal seria até, se possível, instalar aí o Africom, o comando militar da América para a África, por enquanto ainda a funcionar na Alemanha, essa potência emergente que ainda nos poderá dar muito que pensar.
As indústrias da América do Norte e da Europa não podem deixar nas mãos da China todo o potencial de "terras raras" que há na África Ocidental. E é também isso que está em causa quando por estes dias se falar em eswcaramuças nas ruas de Abidjan ou de Bouaké. Há que dizê-lo frontalmente. Jorge Heitor
Bauxite, cobalto, diamantes, ferro, manganésio, níquel, tantalite e oiro são atributos da dita Costa do Marfim, pelo que a alguns países estrangeiros interessa tem no controlo de tais riquezas pessoas de formação economicistas, ligadas ao Banco Mundial e ao FMI.
Isto ajuda a explicar o empenho com que a Administração Obama e o Presidente Nicolas Sarkozy garantam a pés juntos que Ouattara é o Presidente devidamente eleito da Costa do Marfim, devendo substituir o historiador Laurent Gbagbo, criatura da Internacional Socialista.
Se bem que num primeiro tempo, há 15 dias, Gbagbo parecesse isolado, perante as vozes sonantes da Casa Branca, do secretário-geral das Nações Unidas, do Eliseu e da Comissão Europeia, depois ele conseguiu recompor-se e as entrevistas têm-se sucedido, desde os jornais franceses à Euronews.
Nenhum dos dois homens será uma criatura santa e agora aquilo em que temos de pensar é nos metais indispensáveis ao fabrico de aparelhos de alta tecnologia, as chamadas "terras raras", produção mundial dominada pela China e a que os Estados Unidos e o Canadá querem ter acesso.
O que faz correr Washington, Paris, Otava e Bruxelas não será talvez o facto de Ouattara ter tido aparentemente mais oito por cento de votos do que Gbagbo, mas sim o grande jogo da geopolítica.
Gostaria que os nossos jornais e televisões deixassem de continuar a insistir na mesma técnica simplista de que um Presidente perdeu e não quer sair, para irem mais longe, mais a fundo, explicando tudo o que está por trás daquilo que se joga na Libéria e na Costa do Marfim: controlo de metais, de redes terroristas e de tráficos.
Laser, telemóveis, grandes écrans de televisão e iPhones necessitam de coisas que há na África Ocidental; e por isso poderá correr muito sangue na Guiné-Bissau, na Serra Leoa, na Libéria e na Costa do Marfim.
Os painéis solares, as urbinas eólicas, os mísseis de cruzeiro e os radares necessitam das "terras raras" africanas, pelo que há que controlar muito bem todo o espaço que se estende das Bijagós ao Delta do Níger.
O ideal seria até, se possível, instalar aí o Africom, o comando militar da América para a África, por enquanto ainda a funcionar na Alemanha, essa potência emergente que ainda nos poderá dar muito que pensar.
As indústrias da América do Norte e da Europa não podem deixar nas mãos da China todo o potencial de "terras raras" que há na África Ocidental. E é também isso que está em causa quando por estes dias se falar em eswcaramuças nas ruas de Abidjan ou de Bouaké. Há que dizê-lo frontalmente. Jorge Heitor
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