28.12.11

Militares e coca continuam fortes na Guiné-Bissau

O Presidente da Guiné-Bissau, Malam Bacai Sanhá, declarou em Julho do ano passado, de forma inequívoca, que o país “não é propriedade privada dos militares”. Mas a verdade é que tudo continua a ser como se o fosse.
Na sequência de um relatório do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, a pedir profundas reformas na defesa e na segurança guineenses, Sanhá denunciou então o peso excessivo das Forças Armadas e a implicação de alguns dos seus elementos no narcotráfico.
Naquela que foi considerada pela AFP uma tomada de posição rara num país dominado pelos militares desde que a sua independência foi reconhecida por Portugal em 1974, o Presidente disse ter terminado o tempo da subjugação do poder político ao militar.
“O país não pode ficar para sempre refém das Forças Armadas”, sublinhou o chefe do Estado no início de uma reunião do Conselho Superior da Defesa Nacional.
A Guiné-Bissau “está cansada de sobressaltos”, declarou Sanhá, perante o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior e o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, António Indjai, que no dia 1 de Abril de 2010 afastou pela força o anterior detentor do cargo, almirante Zamora Induta.
O Presidente nunca falara de uma forma tão virulenta desde que fora eleito, em 2009, quatro meses depois do assassínio do seu antecessor, João Bernardo Nino Vieira.
A gota de água que aparentemente fez extravasar o copo da sua paciência foi a agressão selvática de uma agente da polícia de trânsito por soldados a mando de um filho do general Indjai.
“Quem quiser dedicar-se ao narcotráfico deve ser excluído das Forças Armadas. O tráfico de drogas deve acabar neste país!”, afirmou Malam Bacai Sanhá, referindo-se a um comércio que tanto tem envolvido políticos como militares.
Um grande silêncio acolheu estas palavras, depois das quais a imprensa foi convidada a abandonar a sala, para que os trabalhos do Conselho Superior da Defesa Nacional prosseguissem à porta fechada.
No dia 3 de Julho do ano passado, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) lamentara o pouco progresso da Guiné-Bissau na luta contra a impunidade, pois que ainda nem sequer levou a julgamento os assassinos de Nino Vieira e de outras personalidades que foram mortas no ano passado.
O país é tido pela Autoridade Internacional de Controlo de Estupefacientes como uma “grande plataforma para o narcotráfico” que passa pela África Ocidental, sendo ponto de passagem da cocaína que da América Latina é encaminhada para a Europa.
As Nações Unidas calculam que a cocaína que entra mensalmente no território guineense corresponde ao PIB anual de 304 milhões de dólares.

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