19.7.16

História da Guiné-Bissau

Depois dos livros do embaixador Francisco Henriques da Silva e dos britânicos Patrick Chabal e Toby Green, entre tantos outros, eis que nos chega às mãos, agora em segunda edição, a obra "Recortes da História da Guiné-Bissau", da autoria de Catarina Lopes (da Fundação Fé e Cooperação), com grafismo e paginação de Emanuel Oliveira Soeiro. Tendo na capa a figura de Amílcar Cabral, fundador do Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau (PAIGC), em 1956, o livro tem prefácios de Abdulai Silá e de José Pedro Castanheira, contando com a colaboração de Carla Félix, Catarina Gouveia, Fátima Candé e outras pessoas. Trabalho coordenado por Catarina Lopes, que em Janeiro de 2010 já tinha preparada uma primeira edição, recorda-nos o que foi no século XIII o império do Mali, ou dos mandingas, do qual se viria a destacar o reino do Gabú, centro de uma das obras do sociólogo Carlos Lopes. Depois disso, este livro de 214 páginas, ilustrado por Helena Melo e Filipe Cravo, fala-nos da chegada dos portugueses à Guiné, em 1446, e da fundação das fortalezas de Cacheu e de Bissau, para depois ir até à abolição da escravatura e ao comércio do coco, do arroz e do amendoim. Seguidamento, recorda-nos que a demarcação das fronteiras do território português das Guiné se efectuou apenas na primeira década do século XX e que há 100 anos o mesmo ainda não se poderia considerar verdadeiramente pacificado, uma vez que havia, nomeadamente, felupes e bijagós a rebelar-se contra as autoridades coloniais. Ou seja, apenas algumas décadas mediaram entre a efectiva ocupação da actual Guiné-Bissau pelo Estado português e o início da luta armada desencadeada pelo PAIGC. Aqui há uns 70 anos, só era considerado português o guineense que dominasse a língua portuguesa e seguisse os usos e costumes lusitanos. O mesmo é dizer: uma pequeníssima minoria. E daí se entende bem como é que, algumas décadas passadas sobre a proclamação unilateral da independência, em 24 de Setembro de 1973, a grande maioria dos guineenses ainda não fosse capaz de escrever correctamente a língua oficial do seu país. Pretender, como se fazia em 1960 ou em 1970, que os guineenses eram cidadãos portugueses, como os do Alentejo ou do Algarve, era uma descarada falácia, uma mentira com fins propagandísticos. A população estava claramente dividida entre "civilizados" e "indígenas", por mais que o Estado Novo procurasse escamotear a realidade. Tudo isto são coisas que podemos recordar, para avivar a memória, no belo compêndio de Catarina Lopes, que na revisão do mesmo contou com o apoio de Francisco Pólvora, Manuel Moraes e Sandra João. A recensão de um livro deixa sempre muito por dizer, sendo uma mera chamada de atenção para largos anos de estudo, que - neste caso concreto - nos permitem ficar a conhecer muito melhor o passado de um país, para assim tentar entender o seu conturbado presente. Os preciosos Recortes englobam biografias de Amílcar, Spínola, Francisco José Fadul, Henrique Rosa, Honório Pereira Barreto, Luís Cabral, João Bernardo Vieira, Kumba Ialá, Malam Bacai Sanhá e muitos outros, que ajudaram a fazer da Guiné-Bissau o que ela é hoje, com as suas potencialidades e os seus defeitos. Obrigado, Catarina!

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