19.1.08

Estamos fartos!

Semana a semana vão surgindo os sinais de que estamos cada vez pior. Hoje é o Expresso que divulga quanto a inflação está a roubar aos funcionários públicos, com os professores e muitos outros a perderem mais de 12 por cento do seu salário nos últimos oito anos.
Não se sabe onde é que isto vai parar. Portugal não para de piorar desde 1999 para cá. Há que dizer basta. Há que gritar até que a voz nos doa. Não se pode mais viver assim.
Isto é demais!
Jorge Heitor 19 de Janeiro de 2008

5.1.08

Portugal não aguenta tanta miséria!

A situação financeira das famílias portuguesas encontra-se ao seu mais baixo nível dos últimos quatro anos. O Presidente da República colocou o dedo na ferida. É necessário remodelar profundamente o Governo. Ou dissolver a Assembleia da República e convocar eleições gerais antecipadas. Isto assim não pode ser. Isto assim não pode continuar. O nível de revolta aumenta dia a dia. Sufoca-se neste país.
A saúde é um desastre. Morre-se nas urgências dos hospitais. Espera-se mais de sete semanas para se marcar certos exames médicos, como uma colonscopia. Estamos fartos!
Jorge Heitor 5 de Janeiro de 2008

18.12.07

O imparável fenómeno Jacob Zuma

Toda a República da África do Sul parecia ontem à noite suspensa dos efeitos imprevisíveis de um grande tsunami chamado Jacob Zuma, cuja eleição para a presidência do partido maioritário era dada praticamente como certa. No entanto, as horas iam passando e continuavam sem se saber o resultado da contagem que o opusera ao Presidente Thabo Mbeki, cujo mandato à frente do Estado termina em princípio dentro de um ano e meio.
O secretário-geral do ANC, Kgalema Motlanthe, anunciara ao princípio da tarde que os resultados da votação para os principais cargos do partido seriam conhecidos a partir das 18h00 locais (16h00 em Lisboa). Mas às 20h ainda nada era sabido, limitando-se toda a gente a especular sobre se o eventual novo Presidente da África do Sul poderá ou não ser um “novo Mugabe”, como em Londres se interrogava o Times.
Interrogado em Lisboa pelo PÚBLICO sobre as perspectivas de uma vitória de Zuma, o director do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais, Fernando Jorge Cardoso, declarou “não ter uma visão catastrofista” quanto a essa hipótese, apesar de todas as clivagens que têm vindo a ser patentes no ANC.
No seu entender, o candidato dado como favorito para a presidência do partido “não tem um programa radical no campo económico”, nem sequer um comportamento errático: “Não diz uma coisa num dia e outra noutro”.
A incerteza quanto à política que Zuma poderia vir a seguir, se ficasse agora na presidência do ANC e depois chegasse à chefia do Estado, tem causado calafrios a alguns investidores. Mas Cardoso falou de um “efeito Lula”, uma vez que o Presidente do Brasil tem sido muito menos esquerdista e mais pragmático do que se previa na altura da sua eleição.
O que tanto este analista como outros entendem é que, na eventualidade de Zuma ficar agora à frente do partido, a “recta final” da administração Mbeki seria cheia de tensões económicas, sociais e políticas. E colocar-se-ia a hipótese de o Presidente cessante tomar a “posição inteligente” de antecipar as eleições gerais, para diminuir as incertezas.
Fernando Jorge Cardoso recordou a actual subida do preço das matérias primas no mercado internacional; designadamente o oiro, de que a África do Sul é o principal produtor mundial. E considerou que isso poderá permitir a quem ficar à frente do país fazer “algumas flores”, como seria a realização de grandes obras públicas.
A Conferência Nacional do ANC iniciada dia 16 na Universidade do Limpopo, junto à fronteira de Moçambique, deverá terminar amanhã, depois de se conhecerem todos os elementos da nova comissão executiva e de se aprovar uma declaração formal, a sintetizar o trabalho de todos estes dias.
Um dos membros da comissão cessante, Ronnie Kasrils, ministro dos Serviços Secretos, anunciou ontem à imprensa a intenção de propor que se boicote o “Estado sionista de Israel”, um indício mais das inclinações esquerdistas e mais radicais dos quadros do ANC, um partido criado em 1912 e que desde 1994 se encontra no poder.
Para muitos no estrangeiro, como referia ontem o “Times”, “parece que o milagre da África do Sul acabou”, estando a nação ameaçada por uma grande tempestade, depois da relativa tranquilidade que se viveu durante os governos de Nelson Mandela e de Thabo Mbeki. E o articulista recordava que, como chefe dos serviços secretos do ANC durante os tempos da luta contra o apartheid, Zuma teria testemunhado ou autorizado “coisas muito sujas”, dizendo-se mesmo que os militantes suspeitos de espionagem não escaparam com vida.
Jorge Heitor

8.12.07

Pobre povo curdo, tão esquecido

O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta por um Estado de cariz socialista para o povo curdo, poderá estar em risco de divisão ao longo de linhas étnicas, sugerem recentes relatórios dos serviços secretos, lia-se este fim-de-semana na gazeta electrónica turca, em inglês,Today’s Zaman.
Recentes operações da Turquia contra as bases do PKK nas Montanhas de Kandil, no Norte do Iraque, revelaram lutas pela liderança dentro da organização, que os Estados Unidos e outros países consideram ser terrorista.
Membros do grupo naturais da Turquia estão a ser eliminados, intensificando-se a luta pela liderança entre Fehman Huseyin, natural da Síria, e Murat Karayilan, nascido em solo turco. Este último, que chegou ao cimo da hierarquia do PKK depois da captura do líder histórico Abdullah Ocalan, em 1999, fortaleceu a sua posição quando o irmão de Abdullah, Osman Ocalan, também foi eliminado do grupo.
O seu único rival era Cemal Bayik, mas o problema foi resolvido quando os dois homens decidiram cooperar, essencialmente porque Husein, líder dos curdos sírios do PKK, entendeu proclamar-se chefe do grupo. Distribuiu até uma declaração a dizer que assumira o cargo e a prometer o regresso do velho espírito combativo do PKK, criado na década de 1970 para defender os interesses de um povo muito antigo.
Na sequência disso, os curdos sírios e os curdos turcos que há no movimento estão agora a competir pela influência no mesmo. E os curdos iranianos do PKK, de um modo geral neutros, parecem inclinar-se para a facção turca.
Karayilan e Bayik não acharam nada bem que Abdullah Ocalan tenham incluído os curdos sírios na liderança da ala armada do partido, as Unidades de Defesa Popular (HPG). O curdo sírio Huseyin, que comanda os Falcões da Liberdade do Curdistão (TAK), parece por agora estar na mó de cima na luta pela liderança deste grupo cuja ideologia se baseia no marxismo-leninismo revolucionário e no nacionalismo curdo, a causa de um povo de mais de 25 milhões de pessoas que se distribui pela Turquia, Síria, Irão e Iraque. E que alguns historiadores julgam ser descendente dos antigos medos, cuja capital era Ecbátana, a actual Hamadã, 400 quilómetros a sudoeste de Teerão. J.H.

13.11.07

1932/1933 o ovo da serpente

Pedro Ribera Flores era presidente da União Nacional no concelho de Estremoz, em 1932, e suspirava pela ascensão de Hitler ao poder, tal como também ansiava pelo levantamento nacionalista contra a República Espanhola.
Estas coisas lêem-se a páginas 200 do livro Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, um autêntico retrato sobre o que foi Portugal no fim da I República e no começo do Estado Novo.
Um romance que recomendo a todos os portugueses, dos 15 aos 80 anos, pois que os mais velhos já poderão ter algumas dificuldades de leitura...e a obra vai para cima das 600 páginas, sendo bem tarefa para todo um mês.
J.H.

2.11.07

O que nos disse o Presidente Ramos-Horta

Duas semanas antes da sua visita oficial a Portugal, de 14 a 16 de Novembro, o PÚBLICO colocou ao chefe de Estado timorense uma série de perguntas, a que ele respondeu por escrito, abordando tanto as relações bilaterais como a presente situação no seu país.

Qual é o significado da viagem que efectua a Lisboa?

É a minha primeira visita oficial a um país europeu e, como não podia deixar de ser, é a Portugal, dada a enorme importância das relações entre Timor-Leste e Portugal. Os que me conhecem sabem o que sinto e penso em relação a Portugal e aos portugueses, um sentimento de muita amizade, gratidão sincera, realismo e pragmatismo.
Gratidão pelo muito que Portugal e os portugueses fizeram por nós ao longo de muitos anos, e pelo muito que ainda estão a fazer por Timor--Leste. Realismo pela imposição da geografia: Portugal está longe da nossa região, os interesses estratégicos de Portugal são na Europa, tem as suas limitações e prioridades, e o actual interesse de Portugal e dos portugueses por Timor-Leste pode diluir-se no tempo. A distância não perdoa. Pragmatismo porque Timor-Leste tem em Portugal o seu melhor amigo e aliado na Europa. Logo, Timor-Leste deve cuidar muito da relação com Portugal.

Portugal e a Indonésia são alguns dos países com que conta?

Temos investimentos portugueses consideráveis em Timor-Leste. O TimorTelecom é um investimento estratégico vital, como é óbvio. Há outros investimentos, mas modestos. Somos um país do Sueste asiático e as nossas atenções estão viradas para a nossa região, sendo de destacar as relações com a Indonésia e a Austrália, dois vizinhos incontornáveis. A maior parte do nosso comércio é com Indonésia, Austrália, Singapura, China, etc.

A alfabetização da maioria da população é um objectivo viável a curto ou médio prazo?

A alfabetização de toda a população só pode ser um objectivo a longo prazo, isto é, de uns dez a 20 anos. Com a cooperação de Portugal, Brasil e Cuba estamos a fazer um grande esforço nesse sentido. Temos excelentes equipas de professores portugueses, brasileiros e cubanos. Cuba está a apoiar-nos muito na alfabetização de adultos, foi o primeiro programa inaugurado por mim como primeiro-ministro. A vertente mais importante, dominante, da cooperação com Cuba é na área da saúde. Temos uns 600 jovens a cursar Medicina em Cuba e mais de 100 a estudar sob a mão amiga de professores médicos cubanos. Além disto temos perto de 200 médicos cubanos a trabalhar em Timor--Leste, colocados em todos os distritos e subdistritos do país.

O inglês poderá vir a ser uma das vossas línguas oficiais, a par do tétum e do português?

O inglês e o bahasa indonésio são duas línguas de trabalho estipuladas na Constituição. Temos que investir mais no seu ensino. Elevar o seu estatuto para línguas oficiais? Não descarto esta possibilidade, mas careceria de um parecer de linguistas e pedagogos, de muito debate, para pesarmos todas as vantagens e desvantagens de tal opção. Acredito que devemos dar às gerações actuais e futuras instrumentos de comunicação e acesso à informação, à ciência e à tecnologia, e isto é mais facilmente feito através do inglês. O bahasa indonésio é também muito importante pelo simples facto de que uns 50 por cento do povo ainda fala o indonésio, pelo facto dessa língua ser falada por 250 milhões de pessoas na Indonésia, 30 milhões na Malásia. É sobretudo uma língua que já faz parte da nossa história, das nossas vidas, da nossa cultura.

Estes últimos meses têm sido ou não de acalmia?

De uma maneira geral, no plano de segurança, a situação em todo o país está muito mais calma. Depois dos eventos tristes e trágicos de Agosto (para não falarmos da situação que se vivia no ano passado, que foi bem mais trágica), graças ao esforço concertado da UNPOL (polícia das Nações Unidas), da GNR, da nossa polícia e das Forças de Segurança Internacionais, a situação estabilizou rapidamente. As nossas Forças de Defesa desempenharam um papel cívico extremamente importante no apaziguamento dos ânimos. O brigadeiro-general Taur Matan Ruak, chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, foi incansável, um verdadeiro homem de Estado e de paz, ajudou-me imenso com os seus homens a remover obstáculos nas estradas, a realizar diálogos, a fazer mediação. A maior parte da nossa polícia também se portou muito bem. A liderança da Fretilin de igual modo ajudou na tranquilização. Mas a situação continua precária. Não se pode dizer com demasiado optimismo que está tudo resolvido. O Estado é novo, recente, logo necessariamente frágil, e é preciso muita prudência e paciência quando se quer resolver certas situações mais complexas.

O principal partido actualmente na oposição está a conseguir coexistir razoavelmente com a aliança governamental?

A liderança da Fretilin continua a dizer que a minha decisão em convidar a Aliança da Maioria Parlamentar (AMP) é inconstitucional e logo o IV Governo liderado pelo nosso irmão Xanana é ilegal. Convidei--os a levar o caso ao Tribunal de Recurso, mas ainda não tiveram a coragem de o fazer. A liderança da Fretilin pode também iniciar um processo de impeachment do Presidente pela via do Parlamento, se realmente acredita que cometi um acto inconstitucional. Mas a base da Fretilin tem sido mais pragmática do que certa liderança. Exemplo disso é Suai, onde também a Fretilin obteve a maioria. Ali a liderança regional da Fretilin disse claramente em reunião pública comigo: "Uma vez tomada uma decisão pelo Presidente da República, nós acatamos. Não questionamos. Aqui em Suai todos os partidos estão a colaborar". Isto está a acontecer em todos os outros distritos. Acabo de me reunir com todos os administradores dos três distritos e subdistritos de Baucau, Lautém e Viqueque e todos em uníssono comprometem-se a trabalhar com o Presidente da República e com o Governo, porque dizem: "Nós somos da Fretilin, mas somos servidores do Estado."

Como é que vê os pedidos para o afastamento do procurador-
-geral da República?

Longuinhos Monteiro foi reconduzido por mais quatro anos, pelo então Presidente da República, pouco antes do término do seu mandato. Não tenho razões de força maior para o substituir.

Existe alguma novidade no caso do major Alfredo Reinado e no dos ex-peticionários?

O Governo estabeleceu um grupo de trabalho liderado pelo secretário de Estado para a Segurança, Francisco Guterres, para resolver os dois casos pela via do diálogo. Ele é altamente experiente em resolução de conflitos. Tem um mestrado pela Universidade de Uppsala (Suécia) e um doutoramento pela Universidade Nacional da Austrália em Resolução de Conflitos. Além disso é assistido pelo Centro para o Diálogo Humanitário, de Genebra (Suíça), e por uma organização não governamental timorense. Com paciência e prudência, vamos fechar estes dois dossiers. O caso de Alfredo Reinado prende--se com a justiça, embora esteja ligado também à questão dos peticionários e aos eventos de 28 de Abril de 2006.
Jorge Heitor

26.10.07

Ausência de perspectivas de paz no Darfur

Os dois principais grupos rebeldes que actuam no Darfur, o Movimento Justiça e Igualdade (JEM) e o Exército de Libertação do Sudão/facção Unidade, decidiram ontem que não irão participar nas conversações de paz a começar hoje na Líbia, sob a mediação das Nações Unidas e da União Africana (UA).
Desde o acordo de paz assinado o ano passado por apenas uma de três delegações negociais rebeldes, a guerrilha dividiu-se em mais de uma dezena de grupos, prevendo os peritos citados pela Reuters que sem a presença de todos as conversações arriscam-se a ter o mesmo destino que as de 2006.
Antes da comunicação feita ontem à tarde pelo Jem e pelo SLA/Unidade, já Abdel Wahed Mohamed el-Nur, fundador do Exército de Libertação do Sudão, dissera que não iria à Líbia enquanto não houvesse no Darfur uma força da ONU para acabar com as violações e assassínios que se verificam desde o início de 2003.
“O regime não quer a paz. Se houver uma verdadeira paz, ele perde o poder”, considerou el-Nur, de 39 anos, que vive há 10 meses em Paris, de onde a França ameaça expulsá-lo se persistir em boicotar as conversações de paz.
Enquanto isto, o Presidente do Chade, Idriss Deby, considerou que um acordo de cessar-fogo assinado esta semana, também na Líbia, entre o seu Governo e quatro grupos rebeldes é a última oportunidade de estes últimos conseguirem a paz, num conflito que está intrinsecamente ligado ao do Darfur.
Deby aproveitou para avisar os diversos países vizinhos do Chade de que não voltem a apoiar e armar movimentos que pretendam derrubá-lo, pois que isso levaria a uma guerra generalizada e internacional.
As autoridades de N’Djamena têm têm desde há muito acusado o Sudão de apoiar rebeldes chadianos que actuam a partir do Leste, na fronteira com o Darfur.
O acordo conseguido quinta-feira na Líbia prevê uma comissão que integre figuras rebeldes nas estruturas do Estado. E o próprio Deby só conseguiu chegar ao poder, em 1990, depois de ter desencadeado no Leste do país um revolta contra o seu antecessor, Hissene Habré, actualmente exilado no Senegal, onde poderá vir a ser julgado por crimes de guerra. Jorge Heitor